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Pedro e o museu
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Pedro e o museu

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Naquela pequena cidade, onde todos tinham que pegar ônibus para ir trabalhar ou estudar, havia um menino chamado Pedro.

Na casa dele, as manhãs começavam sempre do mesmo jeito: logo cedo, antes do sol nascer, seu pai o acordava para tomar café e se preparar para saírem.

O pai ia ao trabalho, na biblioteca da cidade grande e, no caminho, deixava Pedro na escola.

Depois da aula, Pedro passava a tarde junto com seu pai na biblioteca até a hora de voltarem juntos para casa.

Pedro amava aquele lugar.

Já sabia de cor onde pegar seus livros preferidos, que eram os livros de arte.

Com eles Pedro passava longas horas todas as tardes, lendo sobre os grandes pintores e escultores da antiguidade.

No final do dia, o pai sempre precisava insistir para que Pedro largasse as leituras:

- Vamos logo, filho! Você não vai querer que a gente perca o ônibus, né? Que horas vamos chegar em casa desse jeito, menino?

No outro dia, começava tudo de novo e Pedro adorava que fosse assim: ele sabia que teria mais uma tarde em meio aos seus queridos livros de arte.

Na escola, a matéria preferida dele - você deve imaginar -, era a aula de educação artística.

Pedro gostava de aprender sobre a história da arte, amava pintar e costumava tentar reproduzir as obras dos pintores famosos que via nos livros.

Nem sempre saía perfeito, isso é verdade, mas nada que incomodasse o Pedro.

Ele gostava mesmo era do contato com as tintas e com o papel; muitas vezes ele deixava a sua criatividade correr solta e, ao invés de imitar grandes pintores e obras consagradas, ele misturava as cores e misturava também as imagens que tinha na cabeça.

A professora nem sempre gostava daquela bagunça e fazia Pedro limpar tudo bem limpinho depois da aula.

E foi num desses dias de pintura em sala de aula que Pedro recebeu a maior notícia da sua vida.

Sua escola ia organizar um concurso educacional para os alunos e o prêmio - adivinhe só - seria uma visita ao maior museu do país.

A turma que alcançasse as melhores notas ao final do primeiro semestre seria contemplada com o passeio, que ia durar uma semana inteira na principal cidade da região, conhecida pelos seus muitos parques, bosques e praias - talvez fosse até nisso que boa parte das crianças estivesse mais interessada.

Mas não o Pedro.

Ele ficou empolgado mesmo foi com a possibilidade de visitar aquele grande museu.

Pedro sabia que estava acontecendo lá a mais importante exposição de pinturas famosas que o país já tinha visto.

Era por isso que várias escolas em todas as cidades estavam promovendo concursos parecidos: elas queriam enviar seus melhores alunos para viverem uma experiência cultural única.

E Pedro não ia deixar essa oportunidade passar de jeito nenhum! Ele logo tratou de incentivar seus colegas de classe a melhorarem as suas notas.

Nem todos estavam muito interessados, porque não viam muita graça em ir para um museu.

Mas Pedro os convencia quando falava sobre a aventura que seria aquela viagem de ônibus cruzando o país, como seria divertido passar uma semana inteira em um hotel, ir à praia, aos parques e bosques.

E foi assim que eles acabaram concordando em montar grupos de estudo com o Pedro.

E não é que deu resultado? As notas não só subiram como a turma deles foi a melhor do semestre! Eles ganharam o passeio!

Pedro não conseguia se conter de tanta alegria! Foi correndo até a biblioteca depois da aula e, bastante esbaforido, contou a notícia para o seu pai - que, naturalmente, ficou muito orgulhoso do filho.

Ainda tomado pela empolgação, Pedro passou a tarde compartilhando aquela novidade com todos os funcionários da biblioteca - e até com os visitantes!

As senhoras que vinham devolver seus livros de poesia o parabenizaram com carinho, enquanto apertavam as suas bochechas.

Já os senhores de chapéu e gravata, que carregavam grandes volumes, o cumprimentavam com muita elegância, felicitando-o com um forte aperto de mão.

Por sua vez, os garotos que vinham devolver seus gibis simplesmente debochavam dizendo que ele não passava de um grande sonhador e que aquela história era só mais uma invencionice dele.

Não importava, assegurou-lhe o motorista do ônibus na volta para casa, quando Pedro lhe contou tudo isso:

- O importante é que você vai realizar o seu sonho, meu jovem, ainda que esse não seja o sonho de todo mundo.

Entenda, as pessoas sonham diferente, assim como dormem em horários diferentes e em camas diferentes.

Mas o sentimento de um sonho realizado é sempre o mesmo, Pedro: chama-se felicidade…

Muitos passageiros do ônibus concordaram com o motorista balançando a cabeça positivamente.

Mas foi em casa que Pedro recebeu as felicitações mais calorosas, quando sua mãe o abraçava apertado e beijava sua testa.

Pedro não lembra que horas foi dormir naquela noite.

Só sabe que o tempo não passava.

Aquelas semanas antes de embarcar foram intermináveis.

Todas as noites ele revisava sua bagagem com a mãe e tudo estava sempre lá: roupas, escova de dente, perfume e, é claro, óculos.

Ele conferia todas as malas, uma a uma antes de dormir, afinal, nada poderia dar errado!

Até que finalmente chegou o dia da viagem - que também foi bem mais demorada do que Pedro imaginava.

Logo nos primeiros quilômetros, as crianças já se cansaram de cantar repetidamente aquelas músicas da infância, sobre um motorista que precisa prestar atenção na pista e no poste, que não é de borracha.

Ficaram entediadas, enquanto Pedro ficava cada vez mais ansioso.

Assim que chegaram à cidade do museu, as crianças foram direto para o hotel, onde descansaram e se prepararam para o dia seguinte, que, para o Pedro, era o mais importante de todos, afinal, era o primeiro dia da visita ao museu! Como seria lá? A curiosidade tomou conta de Pedro e ele não conseguiu dormir: pegou seu celular, ligou a lanterna e ficou revisando os seus livros de arte, por debaixo da coberta.

Ele queria estar preparado para não perder nenhum detalhe dos quadros que veria pessoalmente no dia seguinte.

Enquanto lia, o dia amanheceu e Pedro se apressou em se preparar para não perder a hora.

No horário marcado para a saída, lá estava ele, arrumado, perfumado e ansioso: ele era o primeiro da fila.

Aliás, o único.

Ficou ali, esperando os colegas.

E agora sim era que o tempo parecia não passar de jeito nenhum mesmo! O restante da turma se atrasou no café da manhã, a professora esqueceu os óculos e teve que voltar para buscar e, ainda por cima, o ônibus parecia andar mais devagar do que uma tartaruga.

Foram longos minutos, mas finalmente eles chegaram ao museu.

E pela cara do Pedro, certamente a espera tinha valido a pena.

Ele estava maravilhado.

O museu era enorme e lindo.

Para onde quer que se olhasse, via-se um pedaço da história.

Esculturas, quadros, artesanato… Estava tudo ali, exatamente como Pedro tinha visto nos livros.

Ele ficou tão impressionado que resolveu registrar tudo! Tratou logo de sacar o celular e foi fotografando cada tesouro que encontrava pela frente.

E foi assim, ao mesmo tempo focado e distraído, que Pedro causou um verdadeiro desastre: ele acabou tropeçando em um tapete persa do museu e desabou perto de uma obra que parecia importante, já que estava rodeada de uma multidão de visitantes curiosos.

E o pior não foi isso! O pior foi que, ao tentar evitar a queda, Pedro acabou se agarrando à uma ponta da moldura e fez o quadro vir ao chão com ele.

Constrangido, Pedro se levantou em meio a dezenas de olhares de reprovação.

Mas toda vergonha foi embora, dando lugar a um verdadeiro desespero quando Pedro olhou para o chão e reconheceu a pintura que ele havia destruído.

- O que foi que eu fiz, pensou.

E agora, meu Deus? Estou perdido!

O silêncio no museu e os olhares das pessoas continuavam assustadores, mas faziam mais sentido agora: todos sabiam que aquela era a obra mais valiosa de Pablo Picasso.

Na noite anterior, Pedro tinha lido sobre ela.

E por isso mesmo, sua aflição aumentara quando a reconheceu.

Ele sabia que aquele quadro estava avaliado em centenas de milhões de dólares.

Essa lembrança lhe deu um frio na espinha e o fez imaginar a expressão desapontada de seu pai, quando soubesse o que tinha acontecido.

Imaginou também a sua mãe desolada, decidindo vender a casa para pagar o prejuízo.

E o pior é que Pedro sabia que, mesmo que eles vendessem tudo o que tinham, isso não daria nem para o começo.

Seus pais e ele teriam a partir de agora uma dívida impagável, para o resto da vida.

De onde tirariam milhões de dólares? Isso era simplesmente impossível.

A angústia de Pedro aumentou quando ele viu a sua professora sendo conduzida até a sala do diretor do museu, por ser a responsável pela excursão.

Ela passou muito tempo lá dentro, enquanto aqui fora Pedro não tinha a menor ideia do que fazer.

- Será que eu vou ser preso, pensava ele.

Será que eu vou ser deportado para outro país? Meu Deus, o que será de mim?

No meio daquela confusão, Pedro reparou no seu celular, que ainda estava em sua mão, e então teve uma ideia: decidiu ligar para o seu pai, antes que o aparelho fosse confiscado para saldar parte da dívida.

Talvez ele ajudasse a pensar em algum plano de fuga para salvar o filho, quem sabe? Ligou, mas o pai não atendeu.

A apreensão aumentou.

Ligou novamente.

Agora sim, ouvia aquela voz reconfortante:

- Deus te abençoe meu, filho! Como estão as coisas por aí?

Pedro não resistiu e irrompeu em lágrimas.

Subitamente ele se deu conta de que poderia nunca mais ver a sua família de novo, por conta daquele desastre.

- Pai, estou desesperado! Você não tem ideia do que aconteceu aqui!

Pedro confessou tudo ao pai, contando os detalhes com os olhos cheios de lágrimas.

- Ainda tenho alguma chance, pai?

- Calma, filho! Eu entendi a situação e acho que está tudo sob controle.

Eu vou te dizer algo que acredito que vai devolver a sua paz.

Escute com atenção.

Então o pai começou a contar para o filho uma história que ele tinha vivido anos atrás na Biblioteca, quando recebia a devolução de um certo livro, que parecia novo demais para ser dali.

Ao examiná-lo, viu que faltavam as etiquetas e os carimbos da biblioteca.

Concluiu que, certamente, aquele livro não pertencia ao acervo municipal e comunicou isso ao senhor que o trazia.

Foi então que o moço explicou o porquê de entregar um livro assim, novinho em folha: ele havia derramado café no exemplar original, enquanto o lia no seu escritório.

Por isso comprou outro para substituí-lo.

- Nessa hora, disse o pai de Pedro, eu brinquei com o moço e falei: “ainda bem que o senhor não derramou café em uma pintura rara, não é mesmo?”

- E aí, pai?

- Bom, aí então o moço sorriu e disse que também não seria problema, porque todas as obras dos museus têm seguro.

Ele mesmo era diretor de um museu e assegurou que todas as peças têm esse tipo de proteção contra acidentes.

Se alguma coisa acontecer durante a exposição, o seguro cobre o prejuízo e providencia a restauração da obra.

O coração de Pedro voltou a bater.

De repente, um facho de esperança aqueceu seu rosto e iluminou um leve sorriso.

- Sério pai? Será que essa peça tem seguro?

- Acredito que sim, filho.

Fique tranquilo.

Vai dar tudo certo.

Eu e a sua mãe estaremos aqui orando por você.

Nos mantenha informado de tudo e não tenha medo.

Pedro agradeceu ao pai e parou de imaginar maneiras de ficar invisível ou de fugir do museu.

Se o seu pai estivesse certo, daqui a pouco a sua professora e o diretor do museu sairiam daquela sala para dizer-lhe que estava tudo bem.

E foi exatamente o que aconteceu.

Mal Pedro pensara essas coisas e a sua professora abria a porta da sala do diretor, convidando-o a entrar.

Pedro foi, mais confiante no que o pai tinha revelado do que no enigmático meio-sorriso da professora: vai que ela estivesse aproveitando da oportunidade para dar uma lição nele pelas bagunças que ele fazia na sala de aula?

Mas não se tratava nem de vingança, nem de condenação.

Conforme o pai já tinha antecipado, o diretor do museu explicou sobre o seguro, mas também falou da importância de se andar com cuidado por ali.

Algumas obras eram tão antigas e frágeis que talvez não pudessem ser recuperadas de danos mais graves.

A pintura do acidente de Pedro, felizmente, não era uma dessas.

Em poucas semanas ela seria restaurada e estaria de volta à exposição.

Tudo pago pelo seguro.

Pedro saiu muito aliviado daquela sala.

Imagina! Centenas de milhões de dólares! Realmente seria uma dívida impagável.

Mas, para sorte dele, o prejuízo seria quitado por outra pessoa, especializada nesse tipo de coisa - pagar pelos erros dos outros, ora, mas que ramo de negócios é esse? Bem, não importa.

O que importava era que Pedro poderia continuar visitando o museu.

O diretor fez questão de dizer isso, avisando que ele seria sempre muito bem-vindo e até riu quando Pedro mostrou as fotos que tinha feito com o celular.

Acrescentou ainda que adorava quando crianças tão interessadas em arte vinham às exposições e que aquela era a casa onde todos que amam a arte deveriam ser amados também.

E Pedro ficou pensando nisso tudo no ônibus, quando voltava com a turma para o hotel.

Ele pensava em tudo o que ouviu do diretor e também pensava na conversa salvadora que teve com seu pai naquela tarde.

Esses pensamentos fizeram com que ele se lembrasse de uma história muito parecida com a sua, que uma vez sua mãe lhe havia contado, lendo um grande livro de capa marrom.

Era sobre uma outra dívida, também impagável, mas muito maior.

Uma dívida, que assim como a do prejuízo no museu, havia sido paga por outra pessoa.

Pedro se lembrou de Jesus.

Se lembrou da mãe contando como Cristo pagou a dívida dos nossos pecados na cruz, assumindo uma culpa que era nossa e trazendo reconciliação entre nós e Deus.

Pedro se deu conta de que, assim como ele é bem-vindo no museu, mesmo depois dos seus erros, todos nós somos também bem-vindos na casa de Deus, independentemente dos erros que cometemos.

Em ambos os casos, por uma mesma e simples razão: tudo já foi pago.

Enquanto olhava pela janela do ônibus e via as crianças brincando nos parques, Pedro se sentiu o menino mais amado do mundo.

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