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Um sábio, um menino e uma vila especial
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Um sábio, um menino e uma vila especial

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Conta uma antiga lenda que um menino ia todas as tardes até o único poço que havia perto da sua aldeia para buscar água para a sua família.

Ele morava em um deserto e a sua aldeia era a única na região, distante muitos e muitos quilômetros de qualquer outra.

Era muita sorte deles ter encontrado aquele único poço de água muitos anos atrás.

Sempre que chegava no poço, o menino colocava o pote no chão, tirava as sandálias, batia uma na outra para tirar a poeira, colocava as sandálias no chão e sentava em cima delas, com as pernas cruzadas.

Ao seu lado, um sábio meditava em silêncio, até o sol se pôr.

O menino não se atrevia a fazer qualquer pergunta, mas ficava ali, do lado dele, esperando aprender alguma coisa, apenas contemplando de longe a aldeia onde viviam.

E era assim todos os dias.

O sábio meditava.

E o menino observava.

Depois o menino pegava o seu pote, enchia de água do poço e voltava para casa.

Sempre em silêncio.

Até que um dia…

Um dia as coisas não aconteceram como sempre.

O menino chegou, tirou suas sandálias, bateu uma na outra, colocou no chão e sentou-se sobre elas com as pernas cruzadas, enquanto o sábio meditava contemplando o pôr do sol e até aí tudo estava como sempre esteve.

Mas o silêncio de repente foi quebrado.

O menino ouviu uma voz, e arregalou os olhos, pensando que finalmente aprenderia alguma lição com o sábio.

Mas ele continuava com os olhos fechados.

E a boca também.

A voz era de outra pessoa.

Um pouco de água, por favor, pediu um viajante sedento.

Depois do susto, o menino levantou correndo, foi até o poço, encheu seu pote de água e deu de beber ao andarilho.

O sábio não mexeu nem uma sobrancelha.

Pelo menos até ouvir uma pergunta do viajante:

Nobre senhor, que tipo de pessoas vivem nesta aldeia para a qual o senhor está olhando?

Pela primeira vez na vida, o menino viu o sábio abrir os olhos.

O menino tapou a boca com uma das mãos para não soltar um grito de susto quando viu o sábio mexendo nos lábios.

E teve que usar a outra mão para segurar ainda mais forte, porque um grito quis sair de novo quando ele ouviu as primeiras palavras do sábio, que respondeu ao viajante com outra pergunta:

— De onde vens? perguntou o sábio.

Que tipo de pessoas vivem lá?

Secando a boca com a manga da camisa depois de mais um gole d'água, o viajante respondeu:

— Venho de uma aldeia onde só existem pessoas más, egoístas, interesseiras, mesquinhas e maldosas.

Virando o rosto para o menino, o sábio respondeu:

— Pois nesta aldeia vivem pessoas exatamente iguais àquelas que vivem na aldeia de onde vens.

E fechou os olhos novamente.

Contrariado, o viajante colocou o pote aos pés do menino e seguiu o seu caminho, na direção oposta do caminho que levava à vila.

O garoto, ainda com as mãos na boca, ficou observando o viajante caminhar e ficar cada vez menor no horizonte até desaparecer.

Depois, sentou-se novamente ao lado do sábio, em silêncio.

Mesmo sem entender muito a resposta que ele tinha dado ao viajante, nada lhe perguntou.

O menino não perguntou nada aquele dia, e nem nos dias que se seguiram.

E assim, a rotina do menino e seu amigo sábio voltou ao normal: poço, pote, sandálias, pôr do sol e silêncio.

Muito silêncio.

Até que de repente, o menino escuta uma voz.

Olha com olhos arregalados para o sábio, mas ele está sereno, com olhos e lábios fechados.

Olhando para trás, o menino vê outro viajante.

Prontamente o garoto se levanta, vai até o poço e tira água para o homem beber.

Depois de agradecer, ele o viajante se dirige ao sábio, fazendo a mesma pergunta do viajante anterior:

Nobre senhor, que tipo de pessoas vivem nesta aldeia para a qual o senhor está olhando?

Dessa vez, o menino não coloca as mãos na boca.

Nenhum grito de espanto tenta fugir quando ele vê os lábios do sábio começarem a se mexer.

Ele sabe o que o mestre vai dizer:

— De onde vens? perguntou o sábio, confirmando a expectativa do menino.

Que tipo de pessoas vivem lá?

O viajante responde dizendo que vinha de uma aldeia maravilhosa, onde viviam pessoas alegres, felizes, bondosas, cheias de amor e carinho para com seu próximo.

Ao ouvir isso, o menino pensa consigo “imagina, sair de um lugar como esse, caminhar tanto nesse deserto escaldante, para chegar aqui, nessa aldeia onde só há gente má.

Esse viajante não vai gostar nada da resposta que vai ouvir do sábio”

Mas quando o sábio mexe os lábios, as palavras que saem deles fazem o menino colocar as duas mãos na boca para não deixar fugir um grito de espanto!

As palavras do sábio ao viajante ecoavam na cabeça do menino:

— Nesta aldeia vivem pessoas exatamente iguais às que vivem na aldeia de onde vens.

Sem acreditar, o menino ficou observando o viajante agradecer ao sábio e partir rumo à aldeia, saltitando de alegria.

Dessa vez, o garoto não se conteve.

Ele tirou as mãos da boca e perguntou ao sábio:

- Mestre, como que diante de duas perguntas idênticas, destes respostas tão diferentes?

O mestre se virou para ele, e muito calmamente respondeu-lhe:

— É muito simples, meu jovem.

Cada um encontra na vida aquilo que traz dentro de si mesmo.

Aprendi isso depois de passar por muitas vilas e depois de ter convivido com muitas pessoas.

E fechou os olhos novamente.

O menino pegou seu pote, foi até o poço, encheu-o e voltou para casa.

No caminho, ainda pensando nas palavras do mestre, arrependeu-se de ter tratado mal seus amigos e vizinhos.

Ele percebeu que havia criado muros em seu coração depois que ouviu a resposta do mestre ao primeiro viajante.

“Ora, o mestre está certo! Na minha cidade só há pessoas más e mesquinhas, eu quero é distância delas” havia pensado na época.

Mas tudo mudou quando ele ouviu a resposta do mestre ao segundo viajante…

Finalmente o menino percebeu a mensagem de Provérbios 4:23.

Lá está escrito que acima de tudo o que devemos guardar, que guardemos o nosso coração.

O menino aprendeu que nós podemos viver felizes em qualquer lugar se soubermos guardar o nosso coração contra o rancor, contra a vaidade, contra a ira, contra a vingança.

Ele aprendeu que a diferença da resposta do mestre para os viajantes não estava na cidade para onde eles queriam ir.

A diferença era o que estava em seus corações.

O que temos em nosso coração define o que vivemos em nossas vidas.

Depois daquele dia, o menino passou a só guardar coisas boas em seu coração e até hoje contempla o pôr do sol naquele mesmo lugar, perto daquele único poço no deserto.

E agora, já um senhor de idade, ele percebe todas as tarde um menino vir buscar água no poço e sentar-se do lado dele, esperando aprender uma grande lição do novo sábio da vila, que sucedeu o antigo, mas que guarda em seu coração a mesma lição, a maior lição da vida: guarde o seu coração.

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