Voltar para Início
Um dedão fujão
Tocando Agora

Um dedão fujão

Narrado por

0:000

Por que eu não posso estudar à tarde?”, pensou João enquanto se levantava da cama, ainda com muito sono.

O sol brilhava bem tímido pela janela do quarto do menino, que tomou um susto quando colocou seus pés nas sandálias.

Ele esfregou os olhos com força, mas não adiantou: algo realmente estava faltando ali:Ué, cadê o meu dedo?, disse ele sem acreditar.

O polegar do seu pé direito simplesmente não tinha amanhecido com ele.

Pelo jeito, tinha sumido.

Ah, agora que você percebeu? Ele foi embora faz tempo, disse o polegar do SEU OUTRO pé, o esquerdo.

Oi? Você falou comigo? Claro que sim, ué? Você não ouviu? Quer que eu grite para acordar a casa toda?Eu só posso estar sonhando, disse João ignorando aquela voz e se levantando de vez da cama.

Mas após alguns passos, ele tomou uma queda indo com a cara direto ao chão.

Eu acho é pouco, riu o dedão do pé esquerdo.

Você nunca ligou para a gente.

Por isso o meu amigo foi embora.Ai meu nariz, disse João sentando-se no chão.

Quer dizer que eu não estou sonhando? E para onde foi o meu dedão? Eu nem sabia que dedões faziam falta.Sem os dedões do pé vocẽ perde o equilíbrio, menino.

Nós somos fundamentais para as suas caminhadas todos os dias.

Mas você não valoriza a gente.

O direito tá certo de ter ido embora.

E quer saber de uma? E eu já estou preparando as minhas malas também.

Como assim??O dedão do pé esquerdo explicou embravecido que todos ali se sentiam muito abandonados.

João não cortava as unhas, não lavava o pé, usava tênis apertados demais e estava com um chulé terrível.

Por isso todos os dedos estavam pensando em ir embora.

O dedão do pé direito foi só o primeiro.

Meu Deus! Eu não quero ficar sem meus dedos! Como eu faço para ele voltar?Bom eu tenho uma suspeita de onde ele pode estar, mas não sei se você pode chegar até lá.

O dedão deve ter ido para o Paraíso dos Esquecidos.

Onde fica isso? perguntou João.Há uma velha lenda de que se alguém encontrar a meia mais fedorenta do mundo e encarar o cheiro dela, essa pessoa é teletransportada direto para o Paraíso dos Esquecidos.

Deve ter sido assim que o dedão se mandou.

E onde eu encontro essa meia?Você só pode estar de brincadeira né? Com esse seu chulé, tá na cara que a meia mais fedorenta do mundo está aqui nesse quarto, ué! João então tomou coragem e saiu cheirando as suas meias, cada uma mais fedorenta que a outra.

Mas quando tentava entrar nelas, não dava certo.

Ele não cabia, era grande demais.

O dedão do pé esquerdo ria alto, se divertindo com aquela cena.

Quem diria que João, dono do pior chulé do mundo, ia acabar tendo que cheirar suas próprias meias! Depois de tantos anos sendo relapso com a higiene dos pés, agora ele estava provando do seu próprio veneno!Continue garoto! Você ainda não encontrou a meia mais fedorenta!João estava quase desistindo.

Ele já estava passando mal de tanto mau cheiro e estava começando a achar que tudo aquilo era invenção do dedão do pé esquerdo.

Até que viu debaixo da cama, uma meia esquecida, que parecia ter sido branca um dia, mas estava agora marrom, de tão suja.

Bastou ele encostar o nariz nela e dar a primeira fungada para ele ser sugado para dentro dela por uma nuvem de chulé.

Enfim, ele tinha encontrado o portal para o paraíso dos esquecidos, naquela que era a meia mais fedorenta do mundo.

Mas assim que aterrissou do outro lado, João não teve tempo sequer de olhar ao redor.

Ainda sentado no chão, ele começou a ser arrastado, como que puxado pelos cabelos, mas não via ninguém.

Segurando firme os cabelos para não ficar careca, ele ainda ouviu seu dedão do pé esquerdo falante comentar despreocupado: Parece que seus cabelos também resolveram buscar outros ares hein?Quando finalmente conseguiu girar um pouco a cabeça, João conseguiu ver para onde os seus cabelos estavam indo: havia ali o que parecia um conjunto de pentes mágicos, um do lado dos outros, cada um de uma cor, formato e tamanho.

Seus cabelos se moviam como se tivessem vida própria, como quem via uma miragem depois de anos caminhando com sede no deserto.

João lembrou que aqueles cabelos não viam um pente há muito tempo.E agora dedão, o que eu faço?Se você não quer ficar aqui para sempre sendo penteado por esse monte de pentes, é melhor você bater um papo com os seus cabelos.

Gentilmente então, João passou a mão em seus cabelos pela primeira vez em muito tempo.

Senti-os ásperos, e pediu desculpas por usar tanto gel.

Também disse que sentia muito por deixá-los emaranhados por tanto tempo e por não aparar as pontas.

Ele se desculpou por não penteá-los e por deixá-los sufocados sempre embaixo de um boné ou uma touca.

Disse que daquele dia em diante, ia cuidar melhor do seu penteado.

Satisfeitos com as promessas, seus cabelos caíram de volta em seus ombros.

Eu sabia, esses cabelos são uns mansos, mesmo, inacreditável! esbravejou o dedão do pé esquerdo.

Bom, agora acho que podemos ir, né?.Acho que sim, respondeu João, sorrindo um sorriso faltando um dente.

Ih, parece que na verdade não podemos ir não, João banguela.

João banguela? O que você quer dizer com isso??Antes mesmo de terminar a frase João notou que seus dentes estavam se movimentando para frente e para trás, tentando sair de sua boca.

Quando um deles saiu voando, João percebeu a direção para onde todos eles pretendiam ir e viu um batalhão de escovas e fio dental, prontos para recebê-los.

Antes que perdesse todos os dentes da boca, João resolveu pedir-lhes perdão logo.Me desculpem, dentes! Eu sei que vocês são grandes soldados, sei que vocês são muito importantes para mim Sei também que eu não tenho cuidado bem de vocês.

Agora eu entendo o quanto eu tenho atrapalhado a luta de vocês contra as cáries.

Mas não me deixem, por favor.

Eu preciso de vocês.

Prometo que vou cuidar melhor de cada um de vocês!E assim, os dentes se acalmaram.

Mas a situação ainda não estava resolvida.

Ali, naquele paraíso dos esquecidos, logo as orelhas perceberam que finalmente poderiam ser bem cuidadas por belos cotonetes.

Elas rapidamente começaram a abanar a cabeça de João, ansiosas para se aproximarem daqueles cotonetes que pareciam feitos de nuvem e receberem o cuidado suave que mereciam.

Elas se moviam como asas, mas não daquelas que recebem ordens dos seus donos.

Eram asas que sabiam muito bem para onde queriam ir e com seus movimentos determinados começaram a fazer João levantar vôo.

Mas, felizmente, o menino conseguiu acalmá-las, dizendo que a sua limpeza matinal das orelhas passaria a ser impecável, com cotonetes de ótima qualidade.

Já cansado de tanto lutar para manter suas orelhas, dentes e cabelos, João se sentou no chão, muito triste.

Ele estava cansado de tanto pedir perdão e de fazer tantas promessas.

A verdade é que ele não queria ter se metido naquela encrenca.

Tudo que ele queria era voltar para casa - inteiro, de preferência, disse ele baixinho.E foi nesse momento que uma forte luz brilhou e de repente apareceu diante dele uma enorme tesoura resplandescente.

Ela era tão grande, que João ficou pequenininho perto dela, admirando seu manto branquinho.

A tesoura olhou para o menino e disse:Eu ouvi os seus desejos, meu jovem.

E eu tenho a solução para você se manter inteirinho!Sério? O que eu preciso fazer?É muito simples! Eu sou a soberana desse paraíso e posso permitir que você fique aqui para sempre! Você não precisará mais ir à escola e não precisará dizer adeus às suas orelhas, nem dentes, nem cabelos, nem dedões, que, como você já percebeu, querem ficar por aqui! Que tal ficar junto com eles nesse paraíso para sempre?Nada de ir para a escola? Isso me parece uma boa ideia, pensou João, até ser interrompido pelo dedo do pé direito, que magicamente apareceu: Corra João, precisamos ir para longe daqui!Surpreso em rever seu dedão até então desaparecido, João percebeu que seu pé esquerdo já estava se movimentando por conta própria.

Só deu tempo de jogar no bolso o dedão reaparecido e sair correndo, enquanto os dois dedos do pé matavam a saudade.Meu amigão, você voltou! disse o esquerdo.Sim meu amigo! E quem era aquela tesourona bonita lá hein? Tenho certeza que ela cortou as suas unhas com bastante carinho hein, diz aí? E afinal, por que você mandou a gente fugir dela?Ela é uma bruxa, isso sim.

Foi ela quem me convenceu a vir para cá.

Mas aqui é cada um por si meu amigo.

E a verdade é que eu senti muito a falta de vocês todos.

O paraíso dos esquecidos, de paraíso não tem nada.

É tudo uma farsa.

Só não voltei antes porque essa bruxa me impediu.Mas porque ela faria isso? Ora, ela é uma tesoura! Ela gosta de ver as coisas separadas umas das outras.

Por isso, aqui no mundo dela, é tudo separado, veja só! Orelhas para um lado, dedos para o outro.

E o pior é que com a gente está acontecendo a mesma coisa!Já cansado da correria, João parou um pouco, colocando as mãos em cima dos joelhos, ofegante.

Eu sei que o papo tá bom, mas precisamos de um plano.

Não consigo mais correr, disse tirando o dedão do pé de dentro do seu bolso.

Como fazemos para voltar para casa e virar um só de novo, dedão?Eu só conheço a lenda de vir para cá, nunca ouvi uma lenda de voltar para o mundo normal, respondeu o dedão do pé direito..

Ao ouvir isso, João sentou-se no chão, abraçou as pernas com a cabeça entre elas e começou a chorar.Eu sinto muito por não ter cuidado de vocês.

Cada partezinha do meu corpo é importante, foram presentes de Deus para mim.

A minha vida, a minha família, meus amigos: tudo isso faz muita falta para mim.

Os dedões se entreolharam, sem saber o que dizer.

Agora eu entendo o que o meu pai sempre dizia: nós somos um corpo, Jesus é o cabeça.

Só agora isso faz sentido para mim.

Sinto falta dos meus amigos da Igreja, da minha família, exatamente como eu senti falta de você dedão.

É como se agora eu é que estivesse longe do corpo… Enquanto o dedão do pé direito se aproximava de João para consolá-lo, algo mágico aconteceu: de repente ele viu o pé de onde tinha saído brilhar e logo entendeu o recado.

O dedão se aproximou devagarinho até se encaixar novamente no pé e olhou para cima, vendo cair uma lágrima do rosto de João.

Ao cair sobre sobre o dedo e o pé, a lágrima fez brilhar uma grande luz, que iluminou todo o ambiente a ponto de ninguém conseguir ver mais nada.

Quando finalmente eles conseguiram abrir um pouco os olhos, eles perceberam que havia acontecido.

Eles haviam sido teletransportados novamente para o quarto do menino.Ué, o que aconteceu? perguntou João, repentinamente se vendo sentado em sua cama, abraçado com os joelhos.

Sem ouvir qualquer resposta, ele resolveu colocar os pés para fora da cama, fechando com força os olhos e depois abrindo só um deles aos poucos, com medo de estar faltando alguma parte.

Mas não faltava nada.

Todos os dedos estavam lá.

Ele então calçou as suas sandálias e se levantou com muita calma para não perder o equilíbrio, mas não foi preciso tanto cuidado.

Todas as partes do seu corpo estavam lá, onde sempre estiveram.

De repente seus pais entram no quarto.Já está pronto, filho? perguntou a mãeJoão sorriu ao ver o rosto de sua amada mãe e uma nova lágrima percorreu seus olhos enquanto ele fingia estar tudo bem, como sempre esteve.

Abraçado com ela, o menino perguntouPronto para quê, mamãe?Para a nossa viagem de férias, ué - respondeu o pai.

As aulas acabaram e hoje é dia de ir para praia.

João queria pular de alegria mas se conteve.

Vai que estivesse sonhando? Ele só teve certeza que não estava sonhando quando viu sua irmãzinha pegando uma meia fedorenta, que um dia pode ter sido branca, mas estava marrom de tão suja.

O cheiro era bem real para ser um sonho.

E por isso mesmo ele foi rápido e, antes que a menina aproximasse a meia do nariz e fosse sugada por ela, João saltou sobre ela, tomou a meia e segurando-a firme disse:Não vou deixar que nada mais se separe de mim, sua meia fedorenta.

A partir de hoje, vocẽ e todas as minhas meias serão as mais limpinhas do mundo.

Eu também vou cuidar bem dos meus pés, dos dedinhos, do cabelo e dos meus ouvidos também.

E vou cuidar de você, papai, mamãe e irmãzinha.

Vou cuidar dos meus amigos da igreja e da escola também.

Ninguém mais vai para o paraíso dos esquecidos!Bom, desde que você não esqueça as suas malas, já está bom para mim - disse o pai, sorrindo e saindo do quarto.

Apresse-se, vamos sair em 30 minutos.Depois que todos foram embora, João ainda conferiu os dentes, orelhas e cabelo.

Estavam todos lá, graças a Deus.

E foi com um profundo sentimento de gratidão que João se ajoelhou e agradeceu por todos os presentes que ele havia recebido de Jesus.

E se comprometeu a cuidar bem de cada um deles, principalmente das pessoas que amava tanto.

Carregando...

Continuar Ouvindo