Páscoa além dos ovos - a aventura de Lucia na China
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Em uma cidadezinha tranquila do Brasil, havia uma menina curiosa e sempre apressada, chamada Lúcia.
Ela tinha 5 anos e não gostava de esperar - nem pelo bolo de cenoura sair do forno, nem pelas cartas que seus avós mandavam da China.
“Por que demora tanto?” ela perguntava, enquanto o carteiro apenas sorria e acenava do outro lado do portão.
Lúcia adorava receber cartas de seus avós, mas elas pareciam levar uma eternidade para chegar - o que era muito compreensível, já que elas vinham do outro lado do mundo.
Agora, porém, ela estava mais ansiosa do que nunca, porque estava perto da Páscoa e ela não via a hora receber os ovos de chocolate chineses que certamente viriam junto com as cartas dos avós.
Os olhinhos puxados de Lúcia ficavam então vidrados olhando pela janela, todos os dias, sempre que os cachorros começavam a latir anunciando que o carteiro estava passando.
Esses eram os mesmos olhinhos que contavam a bela história de sua família com esse país distante, de onde os seus bisavós tinham vindo para o Brasil há muitos anos atrás, trazendo na bagagem sonhos e sementes de arroz e para onde os seus avós tinham voltado, quando Lúcia ainda era bem pequena.
Eles não eram muito de usar tecnologia, então Lúcia tinha sempre que esperar pelas cartas para saber notícias deles e receber fotos da China.
Se você nunca recebeu ou enviou uma carta, não sabe o que está perdendo.
É parecido com uma mensagem no celular, mas é muito mais marcante, assim como tomar um copo de leite quente feito pela mamãe é muito mais marcante do que tomar o mesmo copo de leite em uma padaria.
Um dia, depois de receber mais um sorriso do carteiro e nenhuma carta, Lúcia voltou para dentro de casa muito contrariada e entediada.
Ficou zanzando pelos quartos até que deparou com algo que sempre a fascinara: a maquiagem da mãe.
Quando olhou pela janela e viu sua mãe falando com uma amiga no jardim, ela soube que era a oportunidade perfeita para explorar aquele tesouro.
Lúcia sabia que não deveria mexer na maquiagem - a sua mãe sempre dizia que aquilo era coisa para mulheres crescidas e ela ainda era uma criança e deveria esperar.
Mas Lúcia estava cansada de esperar.
Já estava cansada de esperar as cartas e estava cansada também de esperar o momento de usar batom.
Sorrateiramente, ela foi tirando com cuidado a maquiagem escondida no armário e colocou no chão, com os olhinhos brilhando.
“Se eu me parecer com a mamãe, será como uma viagem no tempo.
Será como ficar adulta em um piscar de olhos.
Talvez até as cartas cheguem mais rápido,” pensou.
Lúcia abriu o estojo de maquiagem e seus olhos arregalaram de empolgação com as cores vibrantes.
"Só um pouquinho não vai fazer mal", ela pensou, enquanto passava um pouco de sombra azul.
Mas, como você sabe muito bem, um pouquinho com mais um pouquinho, de qualquer coisa, em pouco tempo se transforma em muitão e foi assim que logo Lúcia estava toda coberta de maquiagem.
Quando ela terminou, achou que estaria linda como a mamãe, mas o espelho mostrou mais uma palhacinha lambuzada do que uma mulher adulta.
Quando viu aquela cena, sua mãe não brigou.
Na verdade, até deixou escapar um sorriso.
Ela sabia que Lúcia sentia falta dos avós e estava ansiosa para crescer logo e quem sabe ir por conta própria até a China para visitá-los.
Depois de colocar a filha no colo e limpar seu rosto com lenços umedecidos, ela perguntou:
“O que acha de nós fazermos uma viagem, filha?”
“Para onde mamãe?”
“Para visitar seus avós, ora.
Acho que vai ser muito bom para você.
E talvez lá você aprenda uma lição muito importante, uma lição que eu mesma aprendi quando tinha a sua idade”
Lúcia pulou de alegria.
Ela nem ouviu direito a parte de que aprenderia uma lição, apenas guardou a boa notícia de que iria viajar e encontrar seus avós.
Imagina só, ao invés de esperar as suas cartas e ovos de páscoa chineses, ela é quem iria ao encontro deles!
Depois disso, todos os dias, como era de se esperar, Lúcia, muito ansiosa, perguntava sobre a viagem:
“Já é hoje, mamãe?”
E todos os dias a mãe respondia a mesma coisa:
“Ainda não, Lúcia.
Tudo tem seu tempo.”
Quando finalmente chegaram à China, já era Páscoa e a menina ficou ainda mais empolgada, só pensando em todos os chocolates chineses que en
O avô de Lúcia então explicou que no tempo de Jesus também houve uma pequena ansiedade e uma grande frustração na época da Páscoa.
Os discípulos e todo o povo estavam ansiosos para que o Messias chegasse como um grande guerreiro que os libertasse do domínio de Roma.
Mas na verdade, Jesus tinha vindo de maneira humilde e morreu na cruz para nos libertar de outro domínio: o do pecado.
Nem todo mundo entendeu isso.
Alguns discípulos até desistiram e estavam voltando para suas casas, que ficavam na cidade de Emaús.
Caminhando cabisbaixos e desanimados, eles nem perceberam quando Jesus apareceu no caminho de Emaús e começou a conversar com eles, apresentando a verdadeira vitória, a vitória da ressurreição.
Eles só entenderam depois de muito tempo, quando entraram em casa e ceiaram com Jesus.
Quando ele partiu o pão e o abençoou dando graças a Deus, eles finalmente o reconheceram e louvaram.
Nesse momento, Jesus desapareceu, e os discípulos entenderam que ele havia morrido na cruz, mas agora tinha ressuscitado, vencendo o pecado e a morte!
“Os cristãos chineses comemoram a Páscoa se lembrando da morte e ressurreição de Jesus, Lúcia.
E seus corações se enchem de esperança, todos os anos”
“Então, não tem ovo de Páscoa?”
“Não, mas tem algo muito melhor: a lição da paciência que leva à esperança. Algumas coisas não podem ser apressadas, Lúcia.
É preciso ter paciência para esperá-las chegar.
Mas quando elas chegam, ah que coisa boa! Geralmente elas são muito melhores do que tínhamos imaginado.
Foi isso o que os discípulos sentiram depois que reconheceram Jesus : “não ardia o nosso coração quando ele falava conosco no caminho?”, eles disseram.
Lúcia e seu avô voltaram para casa caminhando por aquela paisagem repleta de arrozais enquanto a menina pensava em como a ansiedade dos Judeus fizeram ele esperar por
um Jesus bem diferente do real.
Um Jesus muito melhor do que aquilo que eles imaginavam.
Um Jesus que nos salvou de um mal muito maior e que nos deu um presente muito maior: a vida eterna.
Quando chegaram em casa, um banquete os esperava.
Não tinha ovos de Páscoa, é verdade.
Mas tinha muito chocolate, em vários outros formatos.
E Lúcia nunca tinha provado nada tão delicioso na vida!
Enquanto os saboreava, junto com as outras comidas típicas da páscoa na China, ela percebeu que finalmente, havia aprendido o valor de esperar e entender o tempo certo das coisas.
E quando voltou para o Brasil, ela não só passou a esperar mais pacientemente pelas cartas dos avós, mas também passou a esperar pacientemente pelo crescimento das pequenas sementes de arroz que trouxe da China e plantou.
Ela descobriu que o chocolate chinês é tão gostoso por que é feito feito com flocos de arroz e está decidida a repetir a receita em casa, com bastante calma.