Felipe não gosta de regras
Narrado por •
Felipe já nasceu meio contrário a essa história de regras.
Quando ainda era um bebê, ele não tomava mamadeira na hora que a mamãe oferecia porque preferia acordar no meio da noite para mamar. E, como todos estavam dormindo, ficava irritado com a demora e começava a chorar bem alto, até alguém trazer sua mamadeira quentinha.
Quando ele cresceu mais um pouquinho, o pai de Felipe teve ainda mais trabalho com essa história de ele não gostar muito de regras.
Foi preciso guardar todos os garfos da casa em um lugar bem alto, porque o menino achava que aquilo servia de brinquedo junto com as tomadas. E não adiantava dizer não, explicar sobre o risco de choque, nada disso mudava a atitude de Felipe.
Para ele, aquela regra de não brincar com talheres era só mais uma que devia ser ignorada.
Afinal, ele só queria se divertir!
Na escola também Felipe logo mostrou que não era nada a favor de regras.
Ele achava aquele lugar uma chatice, porque tudo tinha hora, tudo tinha uma regra.
Tinha hora para entrar, hora para sair; hora para falar; hora para ouvir; hora para ler, hora para escrever.
Não foram poucas as vezes que Felipe foi parar na Direção por desobedecer a essas regrinhas bobas que ele tinha que cumprir antes de passar a manhã no parquinho. E não faz sentido? Quem vai preferir obedecer e ficar na sala de aula quando pode desobedecer e ir logo brincar no balanço, no escorrega e na areia?
Mas o pior mesmo era na Igreja.
Imagina só! Lá tem hora para cantar, hora para ficar calado, escutando o pastor pregar.
Hora de ir para salinha, hora de orar com os coleguinhas. “Porque eu não posso fazer o que eu quiser, na hora que eu quiser, do jeito que eu quiser?”, pensava Felipe.
E foi bem em um domingo de manhã, depois do culto na Igreja, que Felipe decidiu não obedecer mais regra nenhuma.
Resolveu que ia viver a vida à vontade, do jeito que lhe desse na telha.
Ainda no carro com o papai e a mamãe, ele ficou imaginando como a vida ia ser muito melhor assim, com toda a liberdade do mundo.
Assim que chegassem na casa do vovô para almoçar, ele já começaria a colocar seu plano em prática.
E ele sabia exatamente por onde começar…
Não demorou muito e a família já estava no sítio do vovô para almoçarem juntos.
E o vovô logo percebeu algo diferente no comportamento do neto.
Assim que o menino desceu do carro, já desobedeceu a primeira regra e não fechou a porta do automóvel.
O pai até tentou chamar a atenção do filho, saiu correndo para o quintal e nem cumprimentou o avô direito.
De longe, os adultos só puderam observá-lo caminhando com seus pézinhos ligeiros para uma grande e dolorosa lição sobre a importância da obediência.
Isso porque desde muito pequenininho, Felipe se aventurava correndo atrás das galinhas no quintal do vovô, que sempre alertava: “Menino, não mexe com elas! Você vai se arrepender quando elas resolverem proteger os pintinhos”.
Até então o menino sempre obedecia, ainda que contrariado e reclamando.
Mas hoje seria um dia diferente.
Decidido a não se submeter mais a nada nem a ninguém, Felipe partiu para cima das pobres galinhas, que corriam de um lado para o outro, desesperadas.
O avô tentou advertir o neto novamente, mas não deu tempo.
A lição estava a caminho e chegou bem rápido.
Quando Felipe menos esperava, um galo saltou de cima do telhado do galinheiro decidido a defender as pobres galinhas e seus filhotes.
Ele pousou bem na cabeça do menino e agora era ele que corria de um lado para o outro, desesperado e pedindo ajuda aos berros.
O avô se apressou em salvá-lo, mas não pode evitar que ele recebesse algumas bicadas doloridas na cabeça.
Ainda chorando, mais por causa do susto do que pelas bicadas - que não foram tão graves assim, Felipe perguntou porque o galo tinha sido tão mal e cruel com ele.
Afinal, ele só queria brincar com as galinhas.
O avô então explicou que os galos são assim mesmo, que nós é quem devemos ter mais cuidado com eles e que era por isso que ele sempre dizia ao neto para não se meter com as galinhas. “As regras servem para nos proteger, Felipe.
Você não lembra da história que te contei sobre o rei Davi?”
O neto não se lembrava e por isso o vovô contou novamente como Deus tinha treinado Davi para ser um grande guerreiro e um grande líder.
Mas a lição de hoje não teria nada a ver com espadas e gigantes.
O vovô queria ensinar outra coisa…
O avô de Felipe começou relembrado o neto sobre o início da história do rei Davi
- Então, Felipe.
Davi era o mais moço de muitos irmãos e por isso fazia um trabalho que os outros achavam muito chato e sem graça. Ele cuidava do rebanho de ovelhas do seu pai e foi ali que Deus o capacitou, enquanto ele cumpria uma tarefa que todos consideravam muito simples e de menor importância..
- Ah, acho que estou lembrando, vovô.
Davi protegeu as ovelhas contra um urso e um leão, né? Aí ele ficou forte o bastante para enfrentar o gigante Golias não foi?
- Isso mesmo, Felipe! Mas dessa vez, ao invés de pensar em Davi, vamos pensar nas ovelhas de quem ele cuidava.
Você consegue imaginar o que Davi usava para protegê-las?
- Um cajado!
- Exatamente! Você já viu um cajado de perto? Eu tenho um ali, pega lá para mim.
- Aqui está vovô.
- Você está vendo como o cajado é na ponta?
- Tô vendo sim, vovô, parece que ele tem um gancho, né?
- Sim, parece mesmo.
Você sabe para que serve esse gancho?
- Não, vovô…
- Ele serve para trazer a ovelha para perto do pastor.
É assim que ele a guia no caminho certo.
Serve também para tirá-la de uma situação de perigo.
Era assim que Davi protegia as ovelhas.
- Ah é? Eu achava que o cajado era a arma de Davi, que ele usava para bater no urso e no leão, vovô!
- Bom, servia para isso também.
Mas o que você acha que era melhor para as ovelhas? Serem orientadas com o cajado e ficarem sempre em um lugar seguro ou serem socorridas pelo cajado no momento do ataque do leão e do urso?
- Era melhor para todo mundo que elas ficassem seguras, né vovô.
Aí elas correriam o risco de serem comidas pelo urso ou pelo leão.
- Pois então.
Certamente, Davi usou o cajado muito mais para conduzir as ovelhas pelo caminho seguro do que para livrá-las de um perigo.
Como um bom pastor, Davi fazia de tudo para mantê-las em segurança.
E para isso, ele usava o cajado nelas.
E assim é até hoje, ainda que as ovelhas não gostem muito de cajados...
- Não entendi, vovô.
Como assim? Porque elas não iam gostar de algo feito para protegê-las?
- Você acha que as ovelhas gostavam quando Davi usava o cajado para corrigi-las e puxá-las para perto dele? Acha que elas gostavam quando ele usava o gancho para colocá-las de volta em um lugar seguro, quando elas queriam era ir para um lugar arriscado?
- Acho que não vovô.
Devia incomodar esse gancho aí no pescoço delas.
- Eu também acho que elas não gostavam.
Mas isso era o melhor para elas, não era? Você não acha que era justamente ao fazer isso que Davi demonstrava o seu cuidado com elas?
- Com certeza, vovô.
Se Davi não se importasse com as ovelhas, ele as deixaria à vontade por aí, correndo o risco de se machucarem ou serem atacadas.
As ovelhas até iam gostar, porque o cajado não incomodaria mais elas.
Mas iam gostar por pouco tempo, porque logo elas iam se meter em alguma encrenca…
Contente com as respostas de Felipe, o avô partiu para a lição final.
A lição que mudaria a vida do menino!
- Muito bem.
Você está entendendo bem.
Agora me responda uma coisa, Felipe.
Você acha que você é mais parecido com Davi, com o cajado, ou com as ovelhas?
- Que pergunta mais esquisita, vovô!
- Então vamos mudar um pouco a pergunta.
Você acha que um vovô, que avisa o neto sobre o perigo de amolar as galinhas, se parece mais com quem nessa história?
- Com Davi.
O vovô está tentando proteger o neto contra o perigo de ser bicado pelo galo.
- Ah, muito bem.
Mas o cajado que o vovô usa não é como o de Davi.
O cajado que o vovô usa não é como esse que estou segurando.
Não é assim que o vovô tenta convencer o neto a permanecer seguro.
O que é que o vovô usa?
- Usa regras, né vovô? Você explica e diz o que a gente pode ou não pode fazer.
- Muito bem.
Agora você está pronto para responder qual o seu papel nessa história.
Se você não é Davi, e se você não é o cajado, quem é você nessa história?
- Eu sou como a ovelhinha, né vovô?
Pronto, Felipe tinha entendido tudo.
Agora as regras faziam mais sentido para ele.
As ordens na escola o ajudavam a aprender as lições na hora certa e a brincar na hora certa.
Assim ele não corria o risco de reprovar de ano e também ficava seguro de não se machucar por estar no parquinho sem supervisão.
Em casa também, todas as regras serviam para protegê-lo.
Logo ele entendeu porque nunca mais pôde brincar com os garfos da mamãe e porque as tomadas estavam vedadas com uma tampinha de plástico.
Era para ele não tomar choque.
Não era porque o papai era chato.
Era porque ele estava querendo protegê-lo.
Mais tarde, naquele mesmo dia, a família de Felipe foi para uma outra igreja, que ficava do lado do sítio.
O vovô, que era pastor, pregou naquela noite e pela primeira vez Felipe percebeu que tudo o que ele falava era com amor.
Ele falava como alguém que queria muito proteger aquelas pessoas que o ouviam ali.
Felipe se lembrou da imagem do pastor conduzindo as ovelhas a um lugar seguro e viu que era exatamente isso que seu avô estava fazendo ali.
E era a mesma coisa que tinha feito com ele naquela conversa no quintal.
A partir daquele dia, Felipe entendeu que nós somos as ovelhas e as regras são o cajado.
Às vezes, os mandamentos incomodam sim, mas é por meio deles que os nossos pastores nos protegem.
Jesus é o nosso maior pastor e ele escolheu pessoas para fazerem esse papel aqui na Terra.
O papai do Felipe é um deles, os professores na escola também, assim como os pastores da Igreja.
E foi bem em um domingo, depois do culto da noite, ainda pensando nessas coisas, que Felipe decidiu nunca mais desobedecer regra nenhuma.
Resolveu que ia viver a vida de maneira obediente, confiando nas pessoas que Deus escolheu para cuidarem dele.
E assim ele sabia que jamais seria vítima de outro galo na vida.
Nem de urso, nem de leão.
Porque havia alguns bons Davis cuidando dele.