Davi, o esquilo mais ansioso do mundo
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Numa floresta encantada, onde os pinheiros eram tão altos que quase tocavam as nuvens - e os riachos tão barulhentos que pareciam murmurar canções, vivia um pequeno esquilo chamado Davi.
Ele era pequenino, mas seus sonhos eram tão grandes quanto os pinheiros e o céu azul acima deles.
Um desses sonhos tinha a ver com as frutas que os pinheiros produziam.
Essas frutas são conhecidas como pinhões.
Todos os dias, Davi olhava para os pinheiros altos, sonhando com o momento em que os pinhões cairiam e ele os poderia saborear!
Você já deve ter visto um pinhão.
Quando eles caem dos pinheiros e ficam secos, costumam ser usados como enfeites das árvores de natal dentro de casa.
Mas Davi não estava interessado em enfeites e sim em comer aqueles pinhões!
- Por que tenho que esperar tanto? ele se perguntava, com os braços cruzados e uma patinha batendo velozmente no chão.
De tão ansioso, ele às vezes soltava um suspiro que parecia fazer as folhas dos pinheiros sussurrarem zombando dele.
Até dá para entender o Davi um pouco sabe…
Quando aqueles pinhões ficavam maduros, você precisava ver de perto a cena!
Era uma correria só na floresta, com exércitos de esquilos disputando aquele verdadeiro manjar que caía do céu - caía das árvores, na verdade!
Era por isso que Davi ficava ansioso olhando para cima o tempo todo: ele queria ser o primeiro a ver os pinhões caindo - e também queria ser o primeiro a comê-los, obviamente.
Preocupada com a atitude ansiosa do esquilinho, a mãe de Davi, uma esquila sábia e com olhos cheios de ternura, sempre lhe contava histórias ao anoitecer, tentando ensinar-lhe sobre a paciência e o tempo.
- Davi, meu querido, cada coisa tem seu momento certo para acontecer, ela dizia, “veja como as estrelas esperam a noite para brilhar.
Assim também nós devemos esperar o tempo certo para colher os pinhões.”
Mas Davi, com seus olhinhos brilhantes e gulosos, não entendia muito bem o que era paciência e nem queria saber se as estrelas marcavam o tempo no relógio para aparecer na hora delas.
Ele só pensava nos pinheiros, tão altos que suas copas se perdiam de vista, impedindo-o de saber se já estava quase na hora ou se estava longe de os pinhões caírem.
A paciência parecia ser uma lição muito difícil para aquele esquilinho tão jovem e tão ansioso.
O seu maior sonho era este: sair para caminhar na floresta um belo dia e encontrar um enorme tapete de pinhões caídos do céu, todos aos seus pés, prontos para serem devorados.
Um belo dia, os pedidos de Davi foram realizados - ainda que não do jeito que ele imaginava.
O dia em questão tinha começado bem ensolarado, como qualquer outro, e Davi, como sempre, estava dando um de seus passeios por aí.
Mas aos poucos a floresta foi sendo tomada por uma profunda escuridão, com uma grande nuvem negra cobrindo o céu.
Logo uma tempestade feroz sacudiu a floresta, fazendo os pinheiros dançarem desajeitados de um lado para o outro.
A chuva veio sem aviso, com relâmpagos que riscavam o céu e trovões que faziam a terra tremer, com bichos correndo para todos os lados.
Pego de surpresa, Davi teve que se abrigar sob as folhas densas de um arbusto, e dali ficou observando a dança selvagem da natureza.
As gotas de chuva caíam pesadas, e o vento uivava alto, mas o pequeno esquilinho se sentia seguro no arbusto.
Quando a chuva se foi e o sol rompeu as nuvens, Davi emergiu timidamente de seu esconderijo.
A floresta estava transformada; galhos quebrados, folhas espalhadas e, o mais surpreendente de tudo: milhares de pinhões cobriam o chão, como um tapete - do jeitinho que
Davi sonhava.
Ele simplesmente não acreditava no que seus olhos estavam vendo!
A chuva tinha balançado tanto os pinheiros que fez montanhas de pinhões simplesmente caírem no chão!
O nosso amiguinho ficou de queixo caído ao ver o seu sonho enfim realizado, bem ali na sua frente!
Seu coração batia rápido enquanto ele, mais rápido ainda, tentava coletar o máximo de pinhões com seus bracinhos peludos, antes que alguém mais chegasse e o impedisse de levar tudo.
Mas conforme ia tocando os pinhões com suas mãozinhas pequenas e esfomeadas, Davi foi percebendo que havia algo muito errado.
Os pinhões estavam duros demais. Duros e imaturos: todos eles ainda estavam verdes.
“Eu poderia tentar abri-los agora,” ele pensou, “mas se fizesse isso, certamente quebraria os dentes.”
“Por que a natureza foi tão cruel?” ele murmurou, sentindo uma pontada de tristeza.
“Por que me dar tantos pinhões se eu não posso aproveitá-los?”
No final da tarde, a mãe de Davi viu de longe o filho chegando em casa, carregando com dificuldade aquele monte de pinhões verdes nos bracinhos pequenos e peludos.
Depois que o filho lhe contou como os tinha conseguido, ela sorriu e pediu para que ele se sentasse pertinho dela, enquanto a noite começava a cair na floresta.
Olhando para as estrelas que despontavam no céu como pequenos vagalumes, ela começou a falar, enquanto fazia um cafuné na cabeça do esquilinho.
- Sabe por que o seu nome é Davi, meu filho? ela perguntou.
- Não, mamãe. Eu não sei.
- Bom, um pouco antes de você nascer, eu e o seu pai conversamos muito sobre qual nome iríamos dar a você.
Seu pai disse que poderia ser qualquer um, menos o dele,
- Ué e por que meu pai não quis que eu tivesse o mesmo nome que ele? Hoje eu poderia ser chamado de Pedrão pelos meus amigos! Isso ia ser muito legal!
- Seu pai disse que não queria que você fosse precipitado e ansioso como ele e talvez te dar um nome diferente fosse a melhor maneira de começar com o pé direito.
- E como vocês escolheram o nome Davi?
- É aí que está! Você sabia que o rei Davi foi uma das pessoas mais pacientes da Bíblia?
- Sério? Espantou-se o pequeno esquilo. - Mesmo sendo um rei, ele era paciente? Eu achava que os reis sempre exigiam as coisas na hora que eles bem entendessem!
- A maioria dos reis é assim, filho.
Mas Davi, não.
Ele era ainda um jovem pastor de ovelhas quando foi escolhido por Deus para ser rei e levou muito tempo até isso virar realidade.
E nesse tempo todo Davi esperou, pacientemente - explicou a mamãe esquilo.
Ela disse ainda que Davi aprendeu muito nesse tempo de espera, enfrentando gigantes, ursos e leões.
No final das contas, ele praticou bastante sobre ser um bom rei enquanto passava anos protegendo as ovelhas.
Deu tempo até de ele aprender a tocar harpa! E ele ficou tão bom nisso que o próprio rei Saul o chamou para tocar no palácio, nos últimos dias de seu reinado.
Só depois da morte dele é que Davi finalmente assumiu o trono.
- E sabe o melhor de tudo, filho?
- O que mamãe?
- Depois de todos aqueles anos, Davi assumiu o trono no tempo certo: quando finalmente ele estava pronto.
Davi escutava com admiração a história que sua mãe lhe contava, imaginando-se na pele do rei Davi, levando tantos anos para enfim assumir o trono de Israel.
- Filho, assim como o rei Davi esperou pelo momento certo para se tornar rei, você deve esperar pelo momento certo para colher os pinhões - disse sua mãe, encerrando a história com uma lição valiosa:
- Quando chegar o tempo certo, não só os pinhões estarão prontos, mas você também!
Davi olhou para a montanha de pinhões verdes ao seu lado e percebeu que sua mãe tinha razão.
O seu sonho de colher logo os pinhões acabou sendo realizado, mas agora tudo o que ele tinha era um monte de frutos que não serviam para nada.
Com certeza teria sido muito melhor esperar os pinhões caírem dos pinheiros por conta própria, quando estivessem maduros e prontos para serem colhidos - ele pensou.
Enquanto se levantava para preparar o jantar, a mamãe esquilo completou a lição dizendo:
- Sabe filho, a tempestade pode ter trazido os pinhões para baixo por um motivo. Talvez, se você cuidar deles como os pinheiros cuidariam, quem sabe eles amadureçam e você possa saboreá-los um dia. Talvez essa seja a lição de Deus para você.
Depois de receber um beijo da mamãe, Davi olhou para os pinhões e, em vez de tristeza, agora sentiu gratidão. Ele agradeceu pela oportunidade de se tornar paciente, como o rei Davi.
Nos dias seguintes, ele cuidou daqueles pinhões como se eles fossem o seu rebanho de ovelhas.
Ele os protegeu dos pássaros e dos outros animais, cobriu-os com folhas para mantê-los aquecidos durante as noites frias e conversou com eles, contando-lhes histórias e canções, assim como sua mãe fazia.
Com o passar do tempo, os pinhões começaram a mudar. Eles se tornaram mais macios e a casca exterior começou a rachar.
Davi sabia que logo eles estariam prontos. E ele também sabia que, graças à sua paciência e cuidado, eles seriam os pinhões mais deliciosos que a floresta já vira.
E enquanto esperava, Davi aprendeu a apreciar cada momento, cada pequena mudança, cada pequena vitória..
E com isso, ele aprendeu que a paciência não era apenas esperar; mas sim cuidar e proteger, crendo que Deus está no controle e que todas as coisas tem um tempo certo para acontecer.
Com essa nova compreensão, Davi sentiu uma paz interior, porque agora ele sabia que toda espera vale a pena, porque através dela Deus está nos fazendo crescer e aprender, como fez com o rei Davi.
Assim como faz com os pinhões, o tempo também nos faz amadurecer e ficar prontos - e essa foi uma lição que o nosso esquilinho levaria consigo para sempre.