As oracões de Joana
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- Aqui está, Joana! Agora é a sua vez!
Joana olhou bem para aqueles seis pinos, que tinham acabado de ser reorganizados.
Pegou então a bola de boliche de plástico, deu uma pequena corrida de três passou e a lançou o mais forte que pôde.
Ainda assim, dois pinos permaneceram no lugar.
- Quer tentar de novo, querida?
Claro que Joana queria! Afinal, a lição daquela escola bíblica dominical tinha sido muito reveladora.
A menina tinha entendido que, quanto mais oramos, mais chances temos de ver os nossos desejos sendo realizados por Deus.
O jogo de boliche era o momento de colocar isso em prática.
Todas crianças da classe tiveram a oportunidade de colar um pedaço de papel em cada pino, escrevendo neles alguns sonhos que gostariam que se tornassem reais.
Depois, jogaram a bola onde se lia a palavra "oração", tentando derrubar o máximo de pinos - e realizar o máximo de sonhos.
Embora a maioria das crianças ficasse meio chateada por só conseguir derrubar todos os pinos após umas quatro tentativas, Joana não se sentia assim.
"Gente, basta orar um pouco mais!", pensava ela.
Por isso, quando chegou a sua vez então, ela não teve dúvidas:
- Sim, tia! Vou tentar quantas vezes forem necessárias até derrubar todos os pinos!
E depois de sete tentativas, Joana conseguiu e finalmente suspirou com um largo sorriso no rosto.
Todos os seus sonhos seriam realizados! Agora, era só esperar.
E não é que deu certo?
O primeiro desejo de Joana foi realizado no dia seguinte.
Tinha sido um pedido bem simples, na verdade, afinal, ela não queria dificultar as coisas logo no primeiro pedido, Por isso, tinha escrito no pino de boliche:
"Gostaria que o meu gato não fugisse mais de casa".
Parece um pedido bobo, mas Joana já estava cansada de correr atrás do bichano na rua.
Toda vez que ela chegava em casa depois da aula, o gatinho saía pela porta que ela tinha acabado de abrir e sumia no mundo.
Ela então tinha que deixar a mochila ali na porta de casa e saía desesperada atrás dele.
Mas naquela segunda-feira especial, tudo seria diferente.
Joana chegou de mansinho, abriu a porta devagarinho e ...
nada de gato fujão! Depois que ela entrou, viu que o bichinho dormia tranquilamente no sofá.
Um verdadeiro milagre!
Será que o segundo e o terceiro pedidos também viriam tão rápido?
Os próximos desejos de Joana eram bem diferentes do primeiro e nada tinham a ver com o seu gato fujão.
Há muito tempo ela tinha conversado com sua mãe sobre o seu desejo de viajar de novo para a praia, mas dessa vez ela queria muito que a sua prima Lara também pudesse ir com eles.
Por isso, tinha escrito esses dois pedidos de oração nos pinos de boliche na Igreja:
- Senhor, vou colar nesse pino o meu desejo de viajar de novo para a praia; nesse outro pino de boliche, vou colocar outro pedido: que a minha prima Lara possa ir comigo nessa viagem
E, depois da surpresa que teve com o gato dorminhoco, adivinha que outra surpresa Joana teve assim que entrou na cozinha de casa? Seus tios, pais da Lara, estavam lá com a priminha para todos almoçarem juntos depois da Igreja!
Joana quase desmaiou de tanta alegria! E não foi só isso: durante a refeição, eles acabaram combinando a tão sonhada viagem para a praia.
E seria já no próximo final de semana, para aproveitar que as duas meninas já estariam de férias da Escola.
Parecia um sonho! Joana não acreditava no que estava vendo com os próprios olhos!
E o quarto e quinto pedidos? O que mais Joana tinha escrito nos pinos de boliche? Bom, esses outros pedidos talvez demorassem um pouco mais.
Joana sabia que tinha pedido duas coisas que talvez não pudessem acontecer tão cedo.
Ela queria um celular novo e um aumento na mesada.
Mas o que ela não sabia, é que esses pedidos também estavam prestes a se realizar.
E, por incrível que pareça, esses pedidos se tornaram realidade naquele mesmo dia!
Foi mais ou menos assim: depois do almoço, ela e sua prima foram brincar no quintal, enquanto as mães delas organizavam a cozinha e os pais lavavam a louça.
Porém, um descuido fez com que as mães retirassem os celulares das meninas de cima da mesa e os colocassem na pia.
Os pais, conversando animadamente, não perceberam e acabaram lavando os aparelhos junto com os pratos!
Quando as primas voltaram do quintal, eles explicaram o que tinha acontecido e garantiam que comprariam outros celulares, novinhos para elas.
Enquanto isso, para compensar, eles aumentariam as mesadas delas.
À essa altura, Joana nem se surpreendia mais.
Sabia que tudo aquilo era resultado das suas orações.
Mas, e o último pedido? O que ela tinha escrito no sexto e último pino de boliche na Igreja? Será que Joana seria atendida em tudo o que pediu? Foi isso que Lara perguntou, quando a prima explicou tudo o que estava acontecendo.
Lara estava mesmo curiosa, porque não entendia como tudo poderia estar dando tão certo para Joana - e, claro, fazia questão de aprender aquela mágica também.
Joana então contou sobre a aula de domingo na escola bíblica e sobre o que aprendeu sobre o poder que a oração tem de realizar os nossos sonhos.
Lara ficou empolgada e decidiu que ia começar a orar todas as noites também.
Afinal, ela tinha uma extensa lista de desejos e queria que fossem atendidos o quanto antes!
Enquanto Lara anotava em um papel todos os desejos que incluiria em suas orações, Joana contava os minutos para o seu último pedido ser realizado.
Ela estava ansiosa porque, já que tudo estava acontecendo de uma vez só, no mesmo dia, esse último desejo também poderia se tornar realidade a qualquer momento!
Por isso Joana tomou um susto quando sua mãe bateu à porta do quarto, fazendo o coração das meninas disparar.
Joana tinha pedido no último pino de boliche que sua mãe preparasse a sua comida preferida, sem que ela falasse nada para a mãe e que, além disso, ela a deixasse comer no quarto assistindo televisão.
Não era nada fácil isso virar realidade, porque era um pedido que contrariava várias regras da casa.
Primeiro porque, apesar de Joana amava hambúrguer, ela só podia comer isso uma vez por mês - e isso já tinha acontecido naquele mês.
Segundo porque ninguém da família podia comer fora da sala de jantar, muito menos vendo televisão.
Mas acontece que, vocês já sabem, aquela segunda-feira era um dia diferente, muito especial.
Joana tinha certeza que ia dar certo.
Afinal de contas, ela tinha orado bastante e tinha conseguido derrubar os pinos de boliche com a bola da oração, inclusive esse.
Mas só para garantir, Lara e ela tinham orado mais algumas vezes antes de a mãe de Joana as surpreender batendo à porta.
Tinha chegado a hora, finalmente!
As primas receberam o lanche com os olhos arregalados de alegria e um sorrisão de orelha a orelha, mas logo essa euforia toda se desfez.
Os pratos não estavam cheios de hambúrguer, mas sim de macarronada com brócolis e queijo.
"Como assim?", pensou Joana.
"Será que Deus não entendeu o que pedi? Ou será que confundiu as bolas?"
Chateadas, as meninas nem tocaram na comida e não demorou muito para os tios de Joana virem buscar Lara no quarto.
Já era tarde da noite, estava na hora de voltarem para casa e começarem os preparativos para a viagem do final de semana.
Foi então que o pai de Joana percebeu os pratos intocados e a sua filha um pouco tristinha.
Depois que as visitas foram embora, ele voltou ao quarto para descobrir o que tinha acontecido.
- Que cara é essa, filha? Achei que o seu dia tinha sido espetacular...
- Até agora tinha sido sim, pai.
Mas no final, deu tudo errado.
- Ah, é? Não quer me contar o que houve? Quem sabe eu posso ajudar?
Joana explicou então sobre a lição da escola bíblica dominical e sobre os pedidos que tinha escrito nos pinos de boliche.
"Por que o pedido do hambúrguer não tinha dado certo como os outros?", perguntou.
Será que ela tinha orado errado? Ou tinha orado pouco? Ou será que existia um limite de orações que podemos fazer por dia?
Rindo um pouco, o pai respondeu:
- Não é nada disso filha! Acontece que Deus não é um gênio da lâmpada
- Como aquele do Aladim, pai? Eu sei que não é, Deus é de verdade, o gênio não é.
- Sim, mas você está tratando Deus como se Ele fosse um gênio da lâmpada, que faz tudo o que o amo dele quer.
Deus não é assim...
- Ué, mas a professora disse....
- Então, Joana.
Deixa eu te explicar.
Deus ouve as nossas orações, claro.
Mas ele pode nos dar três respostas: "sim", "não" e "espere".
- Sério pai?
- Claro! Ele disse um monte de "sim" para você hoje, não foi? Mas, para o seu último desejo, ele disse não.
E você sabe porquê?
- Não faço ideia, pai!
- Bom, eu tenho um palpite…
O pai de Joana colocou a filha no colo e explicou qual era o seu palpite para o último pedido dela não ter sido atendido por Deus:
- Filha, você sabe que seus tios e a Lara são intolerantes a glúten, não sabe? Sabia que por causa disso eles não podem comer hambúrguer? Senão eles passam mal.
Talvez Deus não tenha atendido o seu pedido por amor a eles.
Não foi porque você fez nada de errado não.
Deus faz sempre o que é melhor para todo mundo, e não simplesmente o que a gente quer.
Depois de conversarem um pouco mais, Joana e seu pai oraram agradecendo pelo dia e ela foi dormir.
Na manhã seguinte, na escola, ela ficou pensando sobre o que teria acontecido se Deus tivesse atendido todas as orações que ela já fez na vida.
Teve um dia que ela orou pedindo que não chovesse nunca mais, para que ela sempre pudesse brincar no quintal.
Bom, se isso virasse realidade, como ficariam as plantações? E os mercados e geladeiras, iam ficar sem comida por causa dela? Ainda bem que Deus não atendeu esse pedido.
Ufa!
Joana foi se lembrando de várias outras orações que havia feito ao longo da vida e foi ficando cada vez mais aliviada por Deus não ter atendido a todas elas.
Principalmente aqueles pedidos que ela tinha feito quando era bem menorzinha e não entendia muito sobre as consequências das coisas.
Uma vez ela pediu para mãe dela simplesmente desaparecer, só porque não queria ver ela cobrando para fazer o dever de casa.
Imagina, ela amava tanto a mamãe!
Até durante a viagem na praia Joana continuou pensando sobre isso.
Mas dessa vez por causa de Lara, que ficou o tempo todo reclamando que a mágica de Joana não estava dando nada certo para ela.
Lara tinha feito um monte de orações e nenhuma tinha sido realizada até então.
Joana sugeriu de elas tentarem descobrir os motivos e juntas elas perceberam que a maioria dos pedidos de Lara ou não lhe fariam nenhum bem de verdade ou então acabariam prejudicando outras pessoas.
"Gente, eu não tinha pensando nas consequências! Que coisa!", comentou Lara.
Essa também foi a conclusão das crianças na escola bíblica seguinte de que Joana participou na Igreja.
A tia da salinha perguntou sobre as orações que os alunos tinham colocado nos pinos de boliche há duas semanas e todo mundo tinha pelo menos um pedido que não tinha sido realizado.
E todos ouviram a professora praticamente repetir as mesmas palavras que Joana ouvira de seu pai:
- Deus nos ama e cuida de nós.
Por isso, ele atende aqueles pedidos que vão nos ajudar a crescer e nos levar a sermos pessoas melhores a cada dia.
Pedidos que nos atrapalhem ou que nos levem para caminhos ruins, receberão um "não" bem grande de Deus, mas um "não" cheio de amor e de cuidado.
Há também aqueles pedidos que Deus responde com um "espere", porque tem coisas que nós só podemos experimentar quando tivermos sabedoria e maturidade suficiente para isso.
Do contrário, podem deixar de ser sonhos e virar verdadeiros pesadelos! Deus jamais faria isso conosco!
- Ah, foi por isso então que Deus não me deu o Porshe que eu pedi, né tia?! Eu ainda nem consigo ver a pista quando estou sentado no banco do motorista! - disse um dos coleguinhas de Joana e todos caíram na gargalhada.
Eles riram e se divertiram bastante ainda naquele domingo, mas saíram de lá com uma lição muito importante no coração.
Aprenderam que quando oramos devemos estar dispostos a aceitar a resposta de Deus, sabendo que ela será sempre boa, perfeita e agradável para as nossas vidas.
Joana nunca mais esqueceu disso e passou a orar todos os dias, sempre atenta às respostas de Deus.
Claro, sempre depois de buscar seu gatinho fujão na rua, já que ele só ficou quietinho naquele primeiro dia porque tinha comido ração demais e acabou dormindo o dia inteiro.
Agora era Joana que precisava de uma boa noite de sono.
Ela orou por isso e Deus atendeu lhe dando bons sonhos.