Alice e seu mundo eternamente ensolarado
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Já era mais ou menos 10 horas da manhã quando Alice acordou, em plena segunda-feira.
Mas não fique achando que ela era uma menina preguiçosa não, nada disso!
Era segunda-feira sim e ela acordou tarde, é verdade, mas Alice merecia! Era o seu primeiro dia de férias, depois de meses de muito esforço para tirar boas notas.
E Alice estava muito animada! Suas tão esperadas férias finalmente haviam chegado!
Ela não via a hora de passar os dias livres brincando com suas amigas, aproveitando o sol e a alegria do verão.
Ela até já se imaginava sentada no gramado com as vizinhas, tomando o já tradicional chá imaginário com suas bonecas.
No entanto, logo no primeiro dia das férias de Alice, a natureza deixou bem claro que tinha outros planos!
O céu amanheceu nublado e assim que Alice levantou da cama começou a nevar!
Pela janela do seu quarto, Alice testemunhava seu sonho de brincar ao ar livre ser lentamente coberto por uma grossa camada branca de gelo.
Alice detestava a neve! Não apenas por causa do frio que a fazia tremer, mas principalmente porque a neve a obrigava a ficar confinada em casa!
A verdade é que ela não tinha uma saúde muito boa quando se tratava de frio.
Era só pegar uma corrente de ar um pouco mais fria e… atchim! Lá estava Alice gripada novamente.
Por isso, sempre que o tempo fechava, sua mãe a mantinha em casa, quietinha, quentinha e em segurança.
Alice olhou pela janela uma última vez e suspirou fundo enquanto seguia para cozinha, de onde sua mãe a chamava.
Lá na mesa da cozinha, uma reconfortante xícara de chocolate quente a esperava.
Alice agradeceu à mãe e passou a bebericar a bebida sem muita animação, enquanto mastigava os biscoitos amanteigados que completavam o lanche.
Alice estava ali na mesa, mas seu pensamento estava longe, longe dos biscoitos e chocolate quente…
Tudo que Alice conseguia pensar era em como aquele inverno de última hora era tão injusto com ela.
Imagens de um tão desejado - e já tão distante - verão quente e ensolarado -, continuavam a dançar em sua mente, sem que ela pudesse fazer nada para torná-lo real...
Mas será mesmo que nada poderia ser feito? Enquanto tomava seu chocolate quente, Alice decidiu que precisava fazer alguma coisa.
Ela precisava de uma fuga daquele inverno injusto que a envolvia.
Com imagens de praias tropicais, campos exuberantes e jardins de flores coloridas em sua cabeça, ela foi surpreendida por uma incrível ideia quando reparava na tampa da lata de biscoitos vazia.
Alice decidiu criar seu próprio mundo perfeito! Nem que fosse só uma maquete para mostrar para Deus e para todos em casa como o mundo real deveria ser.
Alice quase derramou a xícara de chocolate quente quando se esticou toda para pegar a tampa da lata de biscoitos do outro lado da mesa.
Depois, correu esbaforida para o seu quarto, virou a tampa de cabeça para baixo e começou a transformá-la em um refúgio que representasse tudo o que ela mais amava no verão.
Com um pouco de terra do vaso de planta de sua mãe ela preparou o solo, que logo seria coberto de papel alumínio e retalhos de tecido para criar uma paisagem exuberante e cheia de detalhes coloridos, bem calorosos e iluminados.
Alice estava tão concentrada em sua criação que nem percebeu o tempo passar.
E quando terminou, ela achou tudo muito lindo! De tão satisfeita, ela ficou ali, com as mãos no queixo, admirando a sua bela maquete de mundo perfeito.
No meio de tanto deslumbramento e cansaço, seus olhos foram se fechando aos poucos, até que ela adormeceu.
Quando acordou, a surpresa que a aguardava era extraordinária.
Alice não estava mais debruçada sobre a escrivaninha de seu quarto, mas sim deitada em uma relva de retalhos verdes que ela mesma tinha colado na tampa da lata de biscoitos.
Ela olhou para cima e se sentiu radiante de alegria por ter esquecido a luz acesa em seu quarto, antes de pegar no sono.
Isso garantiria que a lâmpada funcionaria como o sol do verão, iluminando tudo à sua volta e com uma grande vantagem: aquela luz não tinha hora para acabar, nem no entardecer, nem com a chegada da noite, além de também impedir o frio e o inverno!
Perfeito! Aquele era um tipo de sol muito melhor que o sol do mundo real, pensou Alice.
Um sol que brilharia intensamente através do papel alumínio ao redor e para sempre!
Inclusive, Alice conferiu e ficou muito satisfeita com o tipo de alumínio, que escolheu, aquele que retirou das embalagens de manteiga.
Ela felizmente tinha escolhido um tipo de alumínio que cumpria muito bem a função que Alice tinha imaginado para ele: refletir eternamente a luz por todo o seu novo mundo encantado, sem deixar nenhum espaçozinho sequer no escuro e no frio! E deu muito certo!
E o céu então desse mundo então? O céu da criação de Alice era de azul maravilhoso, feito de cetim, que ela escolheu no baú de costura da mamãe.
Nesse céu, nunca havia nenhuma nuvem escura sequer ou qualquer ameaça de tempestade à vista - nunca, jamais.
Muito contente, Alice sentia o calor e a luminosidade envolvendo-a por todos os lados, como se o Verão a abraçasse e a conduzisse em uma valsa divertida e eterna.
Ela sentiu que, finalmente, o seu desejo de um eterno verão havia se tornado realidade, ali em sua própria criação, da qual agora ela também fazia parte.
Alice correu e se divertiu durante todo o dia naquele mundo, até não poder mais.
Quando suas energias se esgotaram, ela voltou para a sua cama na relva de feltro e se deitou, pronta para descansar.
Mas, por incrível que pareça, apesar de todo o cansaço, Alice não conseguiu pregar os olhos.
Nem um cochilo sequer ela conseguiu aproveitar.
Com o braço sobre os olhos, ela tentou e tentou, se revirou para um lado e para o outro, se concentrou, fechou os olhos com força, contou carneirinhos, mas nada adiantava.
Não demorou muito para Alice perceber que não haver noite em seu mundo poderia ser a causa daquela sua falta de sono, apesar do cansaço.
Com a luz do quarto acesa, ela havia criado um lugar onde o dia nunca terminava.
Era como se toda hora fosse meio-dia, para sempre.
No mundo real, os dias e as noites se alternam, dando tempo para as pessoas descansarem e dormirem, depois de esgotarem suas energias.
Mas no mundo de Alice, não.
No mundo de Alice, sempre era dia, para ninguém perder tempo cochilando.
Sempre tinha luz, sempre era hora de brincar lá fora.
Mas com isso, também nunca era tempo de descansar ou dormir.
E se no começo isso pareceu uma boa ideia, agora Alice percebia que trazia alguns sérios problemas.
E não só para ela.
Na verdade, não era só Alice que estava incomodada com aquele sol de eterno meio-dia, que não a deixava dormir nem um segundo.
Alice olhou ao redor e percebeu que toda a sua terra florida estava murchando: as árvores cheias de folhas verdes de seda estavam ficando desbotadas.
Por sua vez, o rio cintilante, feito com o perfume da mamãe, já não brilhava tanto, nem exalava o mesmo aroma.
Tudo parecia cansado e ofuscado pelo calor.
Se no mundo real as estações do ano se alternavam, cada uma trazendo sua beleza e encanto únicos, no mundo de Alice não.
Ali era um eterno verão.
E sem um dia depois do outro, com uma noite no meio, a temperatura e a paisagem era sempre igual, e porque não dizer monótona.
Nada de inverno, é verdade, mas também nada de outono , nem nada de primavera.
E Alice já não tinha mais certeza que isso fosse bom.
Foi quando o seu estômago roncou.
Alice estava com muita fome, mas antes de encarar o sol para procurar comida, ela colocou um pedaço de tecido sobre a cabeça, lembrando que sua mãe sempre dizia que sol quente sempre dá dor de cabeça.
E lá foi Alice, procurando alguma fruta para comer, tentando agora se livrar não só do calor, mas também da fome.
De repente, ela teve que parar sua caminhada, para não pisar em uma extensa fileira de pequenas formigas apressadas.
Elas tinham vindo parar ali junto com a terra do vaso da mamãe e quando viram Alice, aproximaram-se dela.
Uma das formigas, que parecia ser a mais velha e sábia, perguntou se Alice procurava por comida.
Ao ver a menina balançando a cabeça dizendo que sim, a formiga lamentou, garantindo que aquela era uma busca sem esperança.
Ali, naquele mundo calorento para onde as formigas foram transportadas contra sua vontade, não havia um caroço de feijão sequer.
- Como assim? Perguntou Alice.
Não tem nada para comer aqui?
- Não, respondeu a formiga.
Aqui é muito diferente do mundo de onde viemos, onde nunca nos faltou comida.
- Lá Deus cuidava de tudo, um dia depois do outro, nos dando até uma noite de descanso no meio, entre um dia e outro.
- Lá no mundo real, uma estação seguia à outra e assim nós colhíamos o fruto da terra e guardávamos um estoque para época do inverno, que era quando nós e a terra desfrutávamos de um longo tempo de descanso e aconchego no frio.
- Depois vinha a primavera, que era o tempo de preparar as sementes para a chuva, pois nós sabíamos que logo Deus iria regar os campos que nos trariam a próxima colheita.
A formiga ainda disse que Deus cuidava tão bem delas que essa chuva era derramada em gotas, não toda de uma vez, para ser gentil com as sementes, com a terra e com as formigas, além, é claro, dos outros bichos.
Observando o semblante surpreso da menina, a formiga explicou que aprendera tudo isso ouvindo as histórias que a avó dela dizia ter ouvido de Jó, o homem justo dos textos sagrados, que era fiel a Deus e conhecia os segredos da criação que revelava tão bem o amor do Senhor por nós.
Alice não deu um pio, para não correr o risco de as formigas descobrirem que ela era a culpada por todo aquele infortúnio de falta de noite, falta de chuva e falta de comida naquele mundo estranho!
Mas ali, caladinha e atenta ao que dizia a formiga sobre as estações do ano e sobre o cuidado de Deus por sua criação, Alice ela se lembrou com carinho de cada uma daquelas épocas do ano.
A verdade é que Alice já havia sido feliz, de maneiras diferentes, em cada uma das estações dos anos passados.
Uma de suas lembranças mais preciosas foi recordar dos presentes de Natal - o que a fez sentir um apertinho no coração.
Alice olhou para as formigas e agradeceu por sua ajuda.
Mas Depois daquela conversa, ela sentiu que não era mais a mesma.
Suas opiniões sobre o mundo real tinham mudado.
Alice percebeu o quanto a ausência das estações do ano em seu mundo artificial tinha afetando o ciclo natural de crescimento e desenvolvimento da vida.
Agora Alice sabia que a natureza seguia um ritmo cheio de sabedoria divina, que incluía mudanças e que permitiam crescimento e a renovação da criação de Deus.
Pela primeira vez desde que chegou ali, Alice olhou para o céu e ansiou pela noite e pelas mudanças que a natureza proporcionava.
Ela quis retornar ao mundo real, agora encarando o inverno com novos olhos, disposta a apreciar todas as belezas que aquela estação do ano tão especial tinha a oferecer.
Seus olhos se encheram de lágrimas enquando ela se sentava à sombra de uma árvore, sem saber se um dia conseguiria voltar.
Com os braços ao redor das pernas e a cabeça baixa, Alice chorou até que adormeceu
Quando finalmente acordou, Alice olhou ao redor e percebeu que milagrosamente estava em seu quarto.
Ela correu para a janela e sentiu o coração bater forte quando viu que a neve lá fora ainda cobria a paisagem.
Enquanto admirava a beleza das paisagens de inverno, seu olhos se arregalaram quando ela se lembrou das formigas e do mundo que criara na tampa da lata de biscoitos!
De um salto, ela apagou a luz do quarto e com as duas mãos em formato de concha devolveu a terra com as formigas para o vaso de plantas da mamãe.
Em sinal de gratidão à amizade de Alice e por tê-las devolvido à natureza, as formigas decidiram trabalhar juntas para cuidar do vaso de plantas da mamãe, para onde felizmente tinham voltado.
Com sua dedicação e engenhosidade, as formigas não apenas mantiveram o vaso limpo e saudável, mas também ajudaram a planta a florescer com cores vibrantes e folhas exuberantes.
A mãe de Alice ficou surpresa e encantada com a crescente beleza de sua planta.
Com o olhar de quem guarda um segredo especial, Alice apenas sorriu, dizendo que por dentro ela agora se sentia radiante como aquela planta.
Afinal de contas, agora ela sabia, o amor de Deus por ela estava revelado em cada estação do ano, até mesmo, no Inverno, com suas xícaras de chocolate e biscoitos amanteigados.