A encrenca do pé de jaca
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Era uma vez cinco amigos. Cada um deles tinha uma brincadeira preferida.
Todos os dias, depois que chegavam da aula, eles se reuniam na praça em frente de suas casas para decidir a brincadeira do dia.
Então, todos então brincavam juntos:
- Hoje vamos brincar de pião, dizia José.
- Não, de pipa, insistia Pedro.
- Ah não, gente! Nunca mais andamos de bicicleta, cobrava João
- Não, hoje é dia de jogarmos futebol, afirmava Tiago.
- De jeito nenhum.
Hoje vamos brincar de esconde-esconde, dizia André.
A discussão costumava ser longa e os amigos sempre tinham dificuldade para chegar a um acordo.
Com isso, eles perdiam muito tempo discutindo e, depois que finalmente escolhiam a brincadeira do dia, logo começava a anoitecer.
Rapidinho suas mães apareciam nas portas de suas casas mandando todos entrarem para tomar banho, jantar e fazer o dever de casa.
Aconteceu assim durante muito, muito tempo, até que um dia eles tomaram uma decisão.
Para que eles não perdessem mais tanto tempo discutindo qual seria a brincadeira do dia, ficaria definido que a cada dia da semana um deles iria escolher uma brincadeira e todos deveriam aceitar a escolha sem reclamar.
Na segunda-feira, por exemplo, seria o José quem escolheria a brincadeira.
Na terça, o Pedro.
Na quarta, o João.
Na quinta, o Tiago.
E na sexta, o André.
No sábado e domingo eles não brincavam juntos, pois eles iam visitar as suas avós.
Com essa nova regra, eles passaram a brincar muito mais tempo, já que começavam a brincar assim que chegavam da escola, aproveitando muito melhor a tarde.
Foi uma excelente decisão.
Funcionou muito bem e os amigos passaram a brincar muito mais tempo do que antes.
Todos os dias, depois de brincarem bastante, eles descansavam debaixo de um pé de manga e perguntavam para o responsável pelo dia seguinte qual brincadeira ele tinha escolhido.
Quase sempre a resposta era a mesma, afinal o menino do dia seguinte já tinha uma brincadeira favorita e todos sabiam qual era.
Um dia, porém, em uma sexta-feira, perguntaram para André qual seria a brincadeira da segunda-feira seguinte, e surpreendentemente ele não sabia responder.
- André, qual será a nossa brincadeira na segunda-feira?
- Não sei.
- Como assim, André? A sua brincadeira favorita não é esconde-esconde?
- É verdade, André.
Você sempre escolhe essa brincadeira no seu dia de decidir.
- Porque você está em dúvida?
- Ah, não sei.
Acho que prefiro uma brincadeira diferente.
Mas ainda gosto muito de esconde-esconde.
Não sei, talvez só consiga decidir na hora mesmo.
André foi para casa pensando nisso.
Depois de fazer o dever de casa, ele teve uma ideia! André se lembrou dos meninos com quem ele brincava sempre que ia para a casa da avó.
Já fazia um tempo que André não brincava com eles, mas decidiu procurá-los para conversar naquele final de semana e pedir sugestões de novas brincadeiras.
No dia seguinte bem cedo, sábado, André e seus pais foram para casa de sua avó.
Chegando lá, ele foi logo para a rua encontrar os meninos dos quais tinha se lembrado.
Assim que contou para eles a história, eles começaram a rir:
Como assim, André? Kkk
Você ainda brinca de esconde-esconde?
Sim, mas tem outras brincadeiras lá onde eu moro também - respondeu André.
Quais, por exemplo?
Pião, pipa, bicicleta, futebol…
Isso é tudo brincadeira de criança.
Aqui a gente brinca de aventura.
Aventura?
Isso, só brincamos de coisas perigosas, porque somos corajosos e não temos medo de nada.
E lá foram os meninos da rua da avó do André mostrando para ele todas as brincadeiras perigosas que eles faziam.
André escolheu uma delas e decidiu que seria a brincadeira da segunda-feira com seus amigos de casa.
Ele se despediu daqueles meninos, voltou para a casa da avó, jantou e dormiu pensando em como seus amigos iam ficar surpresos com aquela nova brincadeira.
No dia seguinte, domingo, ele voltou para casa com seus pais e já fez questão de ligar para seus amigos, dizendo
Vocês não tem ideia da brincadeira nova que eu aprendi.
Vocês vão ver como ela é legal.
Diz aí como é, André.
Não vou dar spoilers.
Amanhã vocês verão.
Os amigos de André ficaram na maior expectativa e não viam a hora de terminar a aula para voltarem logo para casa e se encontrarem na praça.
Qual seria a brincadeira que o André teria escolhido?
- Eu pedi conselhos para os meus amigos de infância, lá da cidade da minha avó e trouxe uma brincadeira nova para nós!
Diga logo qual é, André!
É uma brincadeira de aventura!
Aventura?
Sim, e é muito perigosa!
Perigosa?
Exatamente! E ela é só para meninos corajosos!
Corajosos?
É… ei! Pera aí! Vocês podem parar de ficar repetindo a última palavra das minhas frases?! Obrigado!
Desculpa.
Então explica logo como é essa tal brincadeira perigosa de aventura
É verdade, André.
Explica logo para gente não perder tempo.
André explicou que a brincadeira era uma corrida.
Mas não uma corrida comum.
Era uma disputa para ver quem chegava primeiro na copa de uma árvore, mas tinha que ser a maior árvore do bairro.
-Acho que a maior é o pé de limão, viu - disse João.
Limão? Que nada a maior árvore é o pé de melancia, que é a maior fruta - retrucou José.
Kkk melancia não dá em árvore não, ela nasce é no chão - riu o Pedro, junto com os outros amigos.
Nenhuma dessas é maior que o pé de manga - disse Tiago.
Nada disso - interrompeu André.
Todos vocês sabem que a maior árvore é o pé de jaca.
Todos ficaram em silêncio.
Eles sabiam que aquela era mesmo a maior árvore que existe, e também sabiam que havia sim um pé de jaca ali no bairro.
Mas nenhum deles queria ir até lá.
Seus pais já os haviam proibido de subir no pé de jaca.
Era muito perigoso, muitas crianças já tinham caído de lá e se machucado feio.
Mesmo assim André insistiu.
Ele chamou os amigos de medrosos e disse que os meninos do bairro da sua avó era muito mais corajosos que eles.
Mas não adiantou muito.
Um a um os meninos foram dando desculpas e voltaram para as suas casas.
E André ficou lá, sozinho e irritado.
Será que só ele era corajoso naquele bairro? Ele achava que sim, e para provar isso decidiu subir sozinho no pé de Jaca.
Quando já estava quase chegando no topo, André se apoiou em um galho fino e caiu de lá.
A sorte de André é que seu pai estava chegando do trabalho e viu quando ele começou a subir no pé de jaca.
Já imaginando que o filho fosse cair, o pai rapidamente pegou um colchão e colocou bem no pé da árvore.
Foi em cima desse colchão que André caiu, sem se machucar nem um pouco.
O pai olhou para ele com uma cara brava de desapontamento e os dois foram para casa em silêncio.
Depois de tomar banho e jantar, André foi para o seu quarto, pensando em tudo o que tinha acontecido naquele dia.
Ele sabia que estava bem encrencado.
Seu castigo pela desobediência foi ficar um mês sem video-game.
No dia seguinte porém quando se encontrou com seus colegas depois da aula, André percebeu que os efeitos da desobediência talvez fossem maiores do que o castigo que tinha recebido do pai.
Assim que ele chegou na praça, seus amigos foram se afastando e voltando para casa.
Isso se repetiu a semana inteira e André não conseguiu mais brincar com seus amigos.
Tudo o que aconteceu deixou André muito triste, e seu pai logo percebeu.
Filho, o que aconteceu? Porque você está tão triste? É por causa do video-game? Você sabe que mereceu o castigo né?
Não é por isso, pai.
É por que então?
Meus amigos não querem mais brincar comigo e eu nem sei porque.
Bom, talvez eu saiba.
Lembra da história de Roboão?
Quem?
Roboão, filho do rei Salomão.
Deixa eu refrescar a sua memória.
O pai de André contou então a história de como Roboão, filho do rei Salomão, se deparou com todo o Reino esperando que ele tomasse uma decisão.
Foi isso que aconteceu comigo, pai.
Meus amigos esperavam que eu tomasse uma decisão sobre a brincadeira de segunda-feira.
Ah, é?! Hum, entendi.
Deixa eu continuar então.
O pai continuou contando que Roboão estava em dúvida do que fazer.
Os conselheiros de seu pai, os anciãos mais sábios do Reino, o aconselharam a diminuir os impostos.
Aquela era uma decisão segura, que faria todos felizes.
Meu amigos também disseram isso, pai! Eles falaram para eu escolher a minha brincadeira favorita de sempre, que todos também gostavam.
Ah, é?! Ah, entendi.
Vamos continuar com a história de Roboão.
Depois de ouvir os conselhos dos sábios anciãos, Roboão quis procurar outras opiniões.
Por isso, foi até seus amigos de infância e perguntou-lhes o que deveria fazer.
Eles disseram que Roboão tinha que provar que agora ele era o rei, que ele era quem mandava no Reino.
Disseram que ele deveria mostrar força e coragem, mesmo que isso assustasse seus súditos, as pessoas simples do país.
Eles aconselharam Roboão a aumentar os impostos ao invés de diminuir.
E foi exatamente isso que ele fez.
O povo porém, ficou com medo de Roboão.
Muitos cidadãos foram embora de Israel, e o país acabou sendo dividido.
Ao tentar se mostrar forte e corajoso, o rei afastou as pessoas, que não quiseram mais seguir um rei tão perigoso.
- Pai, acho que estou entendendo. Talvez os meus amigos estejam pensando que eu vou levá-los a fazer outras brincadeiras perigosas como aquelas.
- Talvez seja isso, filho.
- Vou conversar com eles na escola.
Eles precisam saber que eu aprendi a lição!
André dormiu mais tranquilo depois da conversa com seu pai e no dia seguinte fez questão de conversar com cada um de seus amigos.
Ele contou que tinha cometido um grave erro, ao querer se mostrar com mais corajoso que eles.
Também disse que não pretendia mais escolher brincadeiras perigosas no seu dia.
E assim, depois que voltaram da escola, os amigos se reuniram mais uma vez e passaram o dia inteiro brincando de esconde-esconde.
À noite, o pai de André chegou muito ansioso para perguntar para o filho como tinha sido o seu dia.
André contou tudo muito feliz, porque tinha resolvido todos os problemas e estava tudo em paz novamente.
Que bom, filho! Fico muito feliz por você
Eu também, pai! Não via a hora de voltar a brincar com meus amigos.
Graças a Deus tudo se acertou né, filho? Por falar em acertar, agora falta só você fazer o dever de casa para acertar todas as questões da prova de matemática, né André? André, cadê você.
O pai de André saiu procurando o menino pela casa toda, até sua esposa lembrá-lo de uma informação importante:
Você esqueceu que esconde-esconde é a brincadeira favorita do André? Ele é o melhor nisso.
Puxa vida! Deveria ter proibido esconde-esconde em casa ou invés de proibir o video-game então.
Agora já era.
Ele só vai aparecer amanhã na hora de ir para a escola, disse a mãe.
Oi gente! Eu tava só brincando, disse André.
Todos riram bastante, e tudo voltou a ficar em paz.
Depois do dever de casa e da janta, a família saboreou um delicioso doce de jaca, feito com as frutas que caíram da árvore junto com André.