A árvore apanhadora de pipas
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Esta é a história de um menino chamado Samuel, que morava em uma pequena cidade no interior do Brasil.
Samuel adorava soltar pipas, mas tinha um pequeno e insistente problema: sempre que ele soltava uma pipa, ela acabava presa em uma árvore muito alta e cheia de galhos, que ficava no meio do campo onde ele brincava.
Essa árvore era conhecida por todos na cidade como a “árvore apanhadora de pipas”, pois nela ficavam penduradas dezenas de pipas de todas as cores e formas, que nunca mais voltavam para seus donos - e muito menos para o céu.
Nem preciso dizer o quanto Samuel ficava triste e frustrado quando perdia suas pipas.
Quem o visse gastando tanto tempo e carinho para fazê-las, provavelmente ficaria muito triste também ao assistir as pipas ficando presas na árvore.
E era sempre a mesma coisa: Samuel escolhia o melhor papel de seda, a melhor cola, varetas, barbante e decorava suas pipas com desenhos de animais, flores, estrelas e o que mais sua imaginação permitisse.
Depois passava o tempo sonhando com suas pipas voando alto no céu, livres e felizes.
Sempre começava assim.
Mas sempre terminava do mesmo jeito também: quando ele terminava de preparar as pipas e tentava fazê-las voar, a árvore apanhadora de pipas as pegava e não soltava mais.
A verdade é que Samuel nunca conseguiu colocar uma pipa sequer lá no alto no Céu, como ele sonhava.
E o pior de tudo é que ele simplesmente não conseguia entender por que aquela árvore era tão má e egoísta.
Afinal, por que será que ela não deixava as pipas voarem?
Às vezes ele pensava que talvez a árvore fosse solitária, e quisesse as pipas como companhia.
Ou talvez ela fosse só invejosa mesmo, e já que ela mesma não podia voar e ficava a vida toda enraizada ali no chão, ninguém mais poderia voar perto dela.
Ou quem sabe a árvore fosse gulosa, e quisesse as pipas como alimento, ou como enfeite?
Mas nenhuma dessas tentativas de explicações resolvia o problema de Samuel, que só queria uma coisa na vida: ter suas amadas pipas de volta e finalmente fazê-las voar no céu azul.
Um dia, Samuel resolveu que iria enfrentar a árvore apanhadora de pipas de uma vez por todas, e assim tentar recuperar suas pipas perdidas.
Ele se levantou de manhã bem cedo e vasculhou toda a casa até encontrar algo que pudesse ser útil na sua aventura.
Logo o seu equipamento de batalha acabou sendo formado por uma escada, uma tesoura e uma mochila
Ele estava com um ar decidido e, carregando tudo com muita dificuldade, foi até o campo onde ficava a famosa árvore.
Samuel chegou bem perto dela e olhou para cima, com as mãos em concha acima dos olhos, fazendo sombra para ver mais longe.
Se você já foi visitar o seu papai no trabalho e ficou zonzo olhando para cima, admirado com a altura do prédio, então pode ter uma ideia de como Samuel se sentiu ao ver a copa da árvore lá no alto, tão distante e desafiadora.
Mesmo assustado com o tamanho da árvore, ele reparou nas pipas presas nos galhos mais altos, balançando ao vento -, e teve a impressão de que elas pediam socorro, ansiosas para serem libertadas por alguém.
Samuel suspirou quando reconheceu entre elas algumas das suas pipas favoritas e sentiu uma pontada de saudade.
Isso lhe deu um novo ânimo para enfrentar o desafio.
Ele respirou fundo e colocou a escada encostada no tronco e em alguns galhos mais baixos e sem folhas da árvore.
Depois, subiu alguns degraus, bem devagar, segurando com cuidado a tesoura e ajeitando a mochila nas costas a cada passo, para ajustar o equilíbrio.
Depois de algum tempo subindo, tendo apenas o marrom do tronco da árvore à sua frente, Samuel finalmente chegou ao primeiro galho com folhas e viu ali uma pipa vermelha com um desenho de um leão.
Era uma das primeiras pipas que ele tinha feito na garagem de casa - e também uma das primeiras a serem roubadas pela árvore apanhadora de pipas.
Samuel cortou o barbante que a prendia, e colocou a pipa na mochila.
Sorriu, e continuou subindo.
Samuel subiu e subiu pela escada encostada na árvore, cortando as pipas que encontrava pelo caminho e colocando-as com muito cuidado na mochila.
Por um momento passou pela sua cabeça aquela ideia inocente que a gente tem quando começa a fazer algo que tinha medo e agora não tem mais, como dormir com a luz apagada.
Depois de um tempo é que as coisas se complicam!
E foi assim com Samuel também.
Por um instante, ele se convenceu de que aquela aventura não era nada demais, e que ele logo conseguiria pegar todas as pipas sem problemas.
Mas ele estava enganado.
A árvore apanhadora de pipas parecia não ter gostado nada de ver Samuel resgatando suas pipas, e resolveu se defender - pelo menos foi o que Samuel pensou, quando ela começou a balançar seus galhos com muita força.
E ele teve certeza disso quando a árvore também começou a soltar uma porção de folhas secas, que caíam sobre o seu rosto como uma chuva áspera, amarela e marrom, que muitas vezes tampava completamente a sua visão.
A árvore também começou a fazer um barulho estranho, como se estivesse resmungando ou gemendo.
Samuel ficou assustado com tudo aquilo e se agarrou bem forte na escada.
Ele ainda pensou em esperar um pouco, para ver se aquela confusão passava, para ele poder continuar subindo, mas a árvore estava cada vez mais agitada e barulhenta.
Finalmente, Samuel sentiu que estava correndo um grande perigo, e achou que talvez fosse melhor descer logo e salvar a própria pele ao invés de insistir em salvar pipas.
Ele deu uma olhada para a mochila e tentou contar rapidamente quantas pipas ele já tinha pegado algumas, e viu que não eram muitas.
Se descesse agora, dezenas de pipas ficariam para trás.
Samuel ficou dividido entre continuar sua missão, ou desistir e fugir.
Ele pensou nas belas pipas que ainda estavam presas na árvore, e que talvez nunca mais visse - vai que a ventania as levasse para tão longe que nem ele, nem a árvore as teriam de volta?
O tempo que ele gastou pensando nessas coisas foi suficiente para um galho seco da árvore fazer um barulho parecido com o de uma folha de papel sendo amassada, que fez Samuel arregalar os olhos.
Logo depois aquele galho gritou mais alto o som de rachadura e se partiu no meio, tirando o apoio da escada, que caiu, com Samuel e tudo.
Caído no chão, Samuel olhou para a árvore, que ainda estava se mexendo agitada e fazendo muito ruído, como se celebrasse uma grande vitória.
Ao lado do menino estava sua mochila, agora cheia de pedaços de pipa que se partiram todos com a queda.
Samuel se levantou com dificuldade, sentindo bastante dor, mas quando conseguiu ficar de pé, foi tomado por tanta raiva que logo se esqueceu dos machucados e olhando para cima, esbravejou para a árvore:
- Eu sei que você gosta das pipas, mas elas não são suas. Elas são das crianças que as fizeram e as soltaram. E essas pipas querem voar no céu, e não ficar presas nos seus galhos. Você não pode pegar o que não é seu.
Samuel não sabia se a árvore o tinha escutado, ou se tinha entendido.
Mas do seu lado havia alguém que tinha ouvido e entendido tudo muito bem.
Era um senhor bem idoso, de barba branca e bigodes engraçados, enrolados para cima.
Ele usava um boné do Fluminense e esteve o tempo todo ali, sentado em um banco da praça e observando Samuel subir e cair da escada, enquanto ele alimentava os pombos com pedaços de pão,
- Falando sozinho, ou falando com a árvore, meu jovem? Disse ele com um sorriso gracioso.
Depois de ouvir pacientemente todas as reclamações de Samuel sobre a árvore, o velhinho simplesmente disse:
- Talvez você tenha escolhido a pior época do ano para soltar as pipas que perdeu e agora escolheu a pior época do ano para subir nessa árvore e pegá-las de volta, meu jovem.
- Como assim? estranhou Samuel.
- Bom, pelo que entendi, você soltou suas pipas quando não havia muito vento e por isso elas não subiram até o céu e, por não subirem o suficiente, acabaram enroladas na árvore.
E agora, que estamos no outono, quando os ventos são muito fortes, ao invés de soltar novas pipas você decidiu se vingar da árvore.
Péssima ocasião, porque além dos ventos fortes, o outono é quando as folhas e galhos ficam secos e caem, prejudicando muito a aventura de subir em árvores.
Samuel, ficou de olhos arregalados com a sabedoria do velhinho.
Impressionado em como havia sido tolo, permaneceu calado enquanto o velhinho se levantava do banco e se afastava em passos lentos, como as pessoas idosas sempre fazem quando consideram que já disseram tudo o que tinham para dizer.
Para completar seu recado, ele apenas disse:
- Ah, e mais uma coisa: com esse vento aí, com certeza logo vai começar chover. Não é uma boa ideia ficar aqui nesse campo aberto, onde os raios e relâmpagos mais gostam de cair. Está na hora de ir para casa, garoto, e lembre-se: há um tempo certo para todas as coisas. Pense nisso na sua próxima aventura.
Samuel lembrou-se que já tinha ouvido aquelas palavras antes…
- Ah, foi na Bíblia - se lembrou.
Então ele olhou para o Céu e agradeceu a Deus pelo livramento de não ter se machucado na queda e também agradeceu pela lição que aprendera com aquele bom homem.
Ele reparou que a árvore seguia balançando seus galhos, mas dessa vez teve a impressão de que ela estivesse acenando para ele, sem ressentimentos.
Depois disso, Samuel passou a soltar pipas na época certa e nunca mais se ouviu falar em uma árvore apanhadora de pipas na região.
Nem de meninos caindo de árvores.